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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Testamento sonoro.



Notas tortas da madrugada: Canções e Letras.




Sons de internet discada: Se o futuro é feito apenas de finos fios de desejos, o passado só pode ser transcrito com lápis de sombras e brilhos... Meu tempo é esse e todo passado é já esmaecimento, fonte de criação e dores superadas. O relógio sob a retina não deixa dúvida e nem escolha, temos, tenho que seguir. A música me levou a lugares que jamais poderia ter ido por mim mesmo. Ela maldição e dádiva, é cultivo e desencanto. Mesmo que eu não queira ficam ruídos me perturbando o ouvido interno. E por mais longe que eu vá, ela é almadia, canoa dos Awá. Araquari e Lumiar, Bela Vista e  Grajaú, Penha e Copacabana, Guine Bissau e Perdizes, são sempre as mesmas canções-canoas. Ferro riscando o vidro: Ouço, ouça, Donana lavando roupa, Dusantos lavando louça, Antonio fazendo flauta de bambu num serrote secular. Ele Antonio dos Bêta no violino de compensado, no cavaquinho eletrificado ou na sua viola de arame. Ele tocando pra si, em chinelo de dedo e calça rancheira. Não posso negar, caipira preto é o que sou. Bisneto de negra Jovina e outros homens escuros sumidouros, falos embrenhado na capoeira do serrado. Trago sempre no bornal minha pitada de Congo, uma viola D’Angola para atiçar notas mortas. Somos banzo do futuro. Maquinas de pedal cozendo: Réu confesso, meu lugar é o erro, pois aspiro a memória do mundo.  Pausa longa, performance do nego Jansem “moleque zaranza” no festival. Umas fotografias rotas e rasgadas, prisma em preto e branco deles e saudade. Sempre é uma re-volta a cantiga do Dedé “não me chame de negro da alma branca...” no festival de São Sebastião do Paraíso, num inverno qualquer de 1979, com João Terra, João Batista da Silveira, Vandré e Lord Bira da Silva. O chão é semeado de rasqueados de violas negras, calangos e pagodes roceiros. Ngomas são senhoras de couro e madeira, células rítmicas milenares, segredos abertos.  “Moda de viola não dá luz a cego”, canções do sargento pimenta também não. Sou caipira preto, fugitivo para um quilombo eldorado, mas a cidadela é murada, cercas elétricas indizíveis. Pia que pinga. Maquinas de fotocópia: Não fui a portobello road, mas ouvi a canção que me veio do Suriname, senti aqueles acordes consonantes do reggae e vi quando os primeiros rastas entraram altivos na metrópole e desceram a Martiniano de Carvalho. As ruas de Passos eram minhas desde a entrega daquelas marmitas no Cine astro. Campinho de terra, bola de meia, nada de beiçola ou tifum, eu era uma Pelezinho. As soberbas de São João Batista do Glória moravam lá. Quando o amor me visitou de prima, Ezir morava com a mãe num prédio nobre no Brooklin. Porteiro beje me interditou a mando dela. Claro que não foi a primeira vez nem a última, que senti o frio que vem do norte. É preciso esquecer, mas não perdoar, ponho na canção o trauma, o medo e todo, todo resto, todo lixo subumano que há no mundo e em mim. Tem uma coisa na canção que me alimenta, uma alegria contida, como uma oração presbítera e um canto umbanda fundidos. Sons do mato crescendo: Meu amor é afronórdica tesuda, cristiana  sem sê-lo, tem ombros de feirante, forte gaivota e frágil desnuda.  Desde o começo marcamos encontro na baquinha em Santo Amaro. Eu  e Dubois em altas alemanhas. Antes vaguei por Rodas de pai oxalá, foi minha primeira cantiga, fendida em um festival no ensino fundamental com Raquel e Ana de Lucas e Susana Pimentel, Violão e tambor, e só. Depois que veio e Inhola Trio. Imagine a saga, uma flauta doce e dois batuques, fecharam escola para um show, cobramos ingresso e tal. São Paulo e Minas Gerais, mas  “não sei se vou, não sei se fico”, minha dúvida e de Martinho, chegamos juntos. Ele pelas ondas do rádio, long play na eletrola de pilha, sob a lona preta no Jardim Miriam.  Eu? Via estação luz, chapando os olhos nos arranha céus. Na escola um corpo de menina dança, cheiro, falo, sonho. Periferia e cordel, pastel de feira e japonês, Harume, Kaoro, Mario Nishigawa, Mitico, Ana Saiure, Akira S e Che Guevara, diversidade total, humana e real. Descoberta do mundo e encontro. Cubo da feira, clube da esquina, Jorge Ben e Jorge Bruder e o maestro Tarcísio um preto outro branco. Genão festival, Cabral e Meire, Adalto em piscina cheia, canções autorais, quem quer mais, lazer na periferia. Um envelhecido amigo arrastando a chinela da porta da casa até o portão elétrico: Agora nomes parecem remotos, Raquel, Eugenio Vinci, Léa, Marcão, Valada, Marcinha anos setenta, uma escola uma quadra, um festival de música. Jatos supersônicos: Um pouco de futebol, ponto de ônibus, shorts cumprido, skate e ditadura. Rangido de porta se abrindo. Do terreiro surtido nas Gerais à mesa parca, pencas de bananas em fim de feira e a merda voltando pelo ralo, rua das laranjeiras na Catarina, lá se foi o dedo do Gerson na máquina de concreto. Era um espetáculo o corpo nú daquela jovem senhora na janela do sobrado, cinema toda tarde. Eita molecada. Pula corda, sobe essa parte. Pisando em poças d’água : Um cobertor bem quentinho com dragão chinês estampado, nada se perde em são Paulo, obrigado Bete Ng. Betão, Rubão, Broks, Claudionor. Corpos negros masculinos em profusão, virilidade do futebol, sou eu, Pelezinho, canela fina, fujão.  Num mundo tão diverso, tudo era branco demais. São Paulo é poder, foder e cair. Cida Ângela, Zaire, tranças e contas no cabelo é orgulho negro, black power, irmandade e desejo, dançar soul no chão batido. Não tenho mais medo de bala, corro em zigue zague, meu corpo não é fechado. Não vou morrer de tiros no campinho, bola na quadra do Monsenhor, agora é área da Cooperifa, Marcio batista, Sergio Vaz e Vaz de lima. Euller não conheceu Anastácio e Verinha, Beiçola e Neguinxim, Al green e Ray Charles. Braço da eletrola no sulco: Bloco do beco e Originais. Samba soul e Nascimento, Melodia e Zamba bem. Transa negra, pertença, danças e amores nos bailes. Rituais, becos e muros do parque santoantonio (oh favela, canta comigo: “a subida do morro é diferente, o movimento é geral”, bem antes de racionais mcs). Um universo no corpo dela, bela Arlete, meu negro amor saltando pinguelas. Onde andará?  Viva Vilma correndo da morte, Carlo-Marco, Maria de ontem é Cristina da Paz hoje. “Viva a mata e os olhos verdes da mulata”. Saúdo seu zelo, porque seguem em cantoria no velho mercado velho. Pra mim um santuário, escola e palco do Circo Novessencia e Na Corda banda. Em plena ditadura, solidão, seguem amando a música que está em nós, cantando para ir vivendo.  Inhola trio, mulatos quase brancos e velhos brancos bem racistas, mas pobres demais, sem força para nos apartar. Guitarra com distorção: Né Bubina?  Né Kolchereiber? Nem Pusinkas, nem Mandim, nem Cremm, nem Bochiglieri. Primeira cama de mola, rangidos da cama dançando. Meu amor nunca foi puro, confesso. Mas também quase nunca aceitou fronteiras. Porque só os afetos são eternos. São eles que continuam vibrando quando os nossos corpos jazem frios. Eloquência da vida é Beto vovô e nega senhora, a índia mais linda que eu conheci. Vera é vera, passou bem cedo, choramos e catamos seus sonhos. Ecos de tiros e bombinha de mil: Foram tantos outros que eu nem vi, não velei como Nenê. Não é morte, é ceifa: Sabão de Côco, Zédoido,  Marcio Caveira, Zédimas. Falo sério sobre subcidadania, da sobrevivência em terra alheia que é sua. Nomes e listas nos bares, pés de patos e avatares, matadores de aluguel, a cidade é uma maquina de moer gente. Os demógrafos nada sabem sobre nós, estudaram muito, até que cobriram os olhos com teias rendadas de números. Meu Estanislaw ( não Sergio Porto) era um branco bem raro, bom de bola pra caralho, mas inviril e fingidor. Descobriu que amizade não é amor, é lucro. Identidades em jogo de construção, operário Carlão, Frust, João Loruenço, Tchak, Banana-Ana, Chicão, Marilena quase fome, criançada, subemprego e marmelada. Para o poeta Nono éramos todos metalúrgicos e nordestinos, provincianos em revolta comunistas, proletários letrados, mas sem a grana do Caio Prado, do Carlos Prestes ou do Niemayer. Chico era um operário do BNH, no violão de sete cordas ele está são e resiste. Lá na igreja do padre Luis era seu Raimundo fazendo folia urbana, subindo e descendo morros escorregadios, sob os olhos da velha índia de pele negra. Sons abafados de tambores: É poesia do Chico não meu véi, é vida vivida nos Grajaus da vida, no lado que a cidade é partida, onde quase nunca se junta. As cidades são miragens, os bairros são teares. Eu sou besouro se pau zunindo seus ouvidos. Feira de Santana e Bosque da Saúde, João Braga e Helo “oh quão dessemelhante”. “Triste Bahia”. Carlos Boquinha e Carlos Gianazzi eram Caetanos da periferia. Triste Interlagos, Chico Czar na Capela do Socorro, Parelheiros,  “os olhos tristes da fita rodando no gravador”. O neguinho é esteio, Luis Rosa, Buda bantu. Plantou ruas de harmonias pra eu navegar com meu canto torto. Notas que eu sempre pus na beira, sem trena. Não só por isso sou muito grato. Lamentamos juntos nossos irmãos que jazem aqui nesses campos de asfalto, fuligem e lama. Rabiolas de pipas no ar: Canções são sempre maiores que nós, rompem o tempo ficam vagando.Tornar-se irmão do irmão, contabilizando as perdas e ir costurando sonhos e risos, sem vangloria, não é pra qualquer. É coragem sem tê-la. Oliveira árvore sã, seu óleo é sacro, cabocla-negra, senhora filha da velha aroeira, indígena parelheira, centenária. Pra cada perda uma poesia, para cada negra filha, uma ilha amarrada aos pés continentais. Amor é da nossa condição animal, sem ele não há como prosseguir. Meu coração tava aberto quando ela chegou, só perguntei seu nome, algo estranho me ocorreu sobre sua cor rósea queimada do sol da feira livre, seu cabelo dourado e seus olhos marinhos. Mas não me ative ao texto da interdição e da exogamia. Racismo é ojeriza e ódio pelo humano que vem ao encontro. Como? Se eu não caibo em mim mesmo, se eu nem existo pra mim. Como poderia existir para o outro? “Mesmo que os racistas vençam, ninguém poderá me roubar a memória, das marcas dos meus dedos em suas costas.” Tem muita alegria e vitoria espalhada além de santoamaro, Miranda d’Ouro é canto puro mundo inteiro, Maga Lieri com alma amansada pela dor, também canta humilde e divinamente. Conheci outras tantas mulheres negras, não só na cor, no mundocanto, cujas formas ainda busco. Sara e Geni, ora. Oração, inselença e Kalunga Zambi. Os fragmentos dos seus corpos geraram outros bem mais fortes, Danusa Novaes,  Meire Palma, Nádia Rosa, Luan, Marcus e Marina. Filhas, filhas e irmãs. Detalhe: são portadores de cantos, herdeiros daquelas mulheres. Novamente famílias negras acolhedoras nas beiras de Diadema e Jardim Miriam, por onde passei ao chegar e voltei pelo Jabaquara um centro cultural. Televisão de válvula esquentando: As crianças vingaram, estão forras e a cidade os habita, ainda que na beira. Outros caipiras urbanos, caralhos rubros, alma cheia e cabeça oca, broca ou fábrica de filhos. Não. Como eu, são apenas homens sustentados por dois falos e uma perna, uma paranga ou guimba. Sobre os filhos deles, não fossem as mães seguras e velhas, gente que cria e recria a si mesma, teriam sido engolidos pela enxurrada, tragados pelas ruas. Não me furto ao papel de juiz e serei julgado pelo por tudo que fiz e pelo que não fiz. Melhor assim, do que passar incólume. Hoje penso que eu sei quem sou e o que me tornei. Um homem negro. Meu ser está preso nesse corpo melanínico e fálico. Sei que daqui de dentro desse corpo sinto que a justiça e a polícia, simplesmente me odeiam. Apenas meus irmãos tateiam cegos para me achar no meu corpo. Ele apenas me sustenta no mundo e eu o sinto. O mundo. Máquina de pedal: A canção é uma costura pacientemente feita entre a luta cotidiana e o mundo ao derredor. Banda Tribbu, Vândalos de Chocolate, timbres e sonhos, medos e tons, sons que arrebatam e fazem o corpo reviver. Em conjunto as canções formam flashs iluminados, nas rotas escuras da corrida encarniçada pela liberdade. Pele roçando a pele: Satranga de lima seria um caso a parte pela generosa reciprocidade e vigor. Uma lição viva de afeto, pelo gesto e pelo cunho libertário de sua canção, pela radicalidade como viveu e vive seu amor pelos outros homens, quando s e descobriu livre.  Nos dois nas beiras gélidas do sena, canções, luzes e amores na cidade rica. Ainda assim, canabistas adeptos sinceros tendem a falar muito sobre o mesmo, mas ao menos não se quedaram em dog-máticos cruzadistas. Tendência avassaladora atual. Nessa margem externa dos pinheiros quase todos os bares foram reformados e convertidos em casinhas de cambio jesuíticas. Há muita música de transe e grandes amigos nossos, hoje vivem lá.. Esperam a salvação ou campeiam algum trocado, a vida é dura mesmo. Constato apenas, não julgo e não lamento.  Martelo sobre a madeira: Os girolamo-scantamburlo e schultz serão sempre parte de uma reserva afetiva interrracial e não importará o que acontecer daqui em diante. Nego Jansem frisava o quilombo imaginário de santamaro e a noção do triplo pertencimento, sem saber das revoltas indígenas do século XVI, imaginário em expansão. Negros claros e brancos caídos, circuncisos ainda meninos Gil Assis, Chechetto, Sechanechia, Urbano, Binho, Telmo anum, João grande, Beto de Tore, Carrasco, uma quantidade infinita de nomes, certezas e tons de pele. Novamente canção, feixe de ego e cisão. Não é geografia sonora, é infixidez do território, seminomadismo tonal, zona fronteiriça entre a música e a dúvida, entre a dádiva e a maldição . Tigrão e Célia, Magnólia, Eufra e Mauricio, meus mestres me ensinaram a arte de ficar invisível e a coragem sonhando.  Aprendemos pela experiência cotidiana, que por vezes o viver do lado de cá da ponte é marcado por um sentimento terrível de holocausto, que não cessa nunca, dezenas de vidas ceifadas numa única noite, é aterrador, sufocante. Circuncisos na vida adulto, eu, Caminha, Mano, Godoy, Suete, Salete, Tai, Elcio, Caçapava e os Fischer.   A arte nos parece ser única coisa capaz de dar um contorno compreensível a essa nuvem de silêncios e narrativas sobrepostas, imagens recortas e sobrepostas, vidas quase fictícias, temporalidades  e geografias entrechocadas. Por conta das divisões internas, mal conseguimos saber de onde vem o chumbo. Sequer conseguimos sustentar um teatro livre como aquele da Bielorrússia. Serra o papo do vovô: A arte aqui tem a ver com a urgência existencial das coisas frágeis, sopros envolvidos numa engrenagem, quase sempre desgovernada e cruel. Clarianas, Capulanas, Quizumba, Crespos e outros tantos negros coletivos, são bons presságios, um refresco para tanta vida vã. Kaká um dia verá, fomos poeira do mesmo rastro no tempo. Semente ngaguelano, chão do quilombo da Mombaça, nova tribo.  Maria e Cristina da Paz Gomes, todos os Gomes e Olgins, marlenes e tiznau, nomes e sobrenomes de bambas. Mas homens que dançam também matam. Ronaldo  e Naldinho, Fl´pavio e Celinha, Irani e Solange, maria do nico, Margarida, Regna, João, Abrão, Maria, Rafael,   e batismos de sangue e canhão. Até quando? Toda palavra é excesso e um gesto é sempre feito de incompletude. Embrulho poemas em papel de pão: Escrevo eu meu computador de bordo, meu cérebro eletrônico coevo. Pode ser por culpa da escola, das professoras  que me deram trela, foram tantas, uma Alcione Abramo, outra Angelina, Antonieta, Maria  várias. Nunca me escolarizei por completo, conquanto doutor semialfabetizado e vingativo. Resquícios de oração: Me fiz em contracanto um juntador de letras, um catador de palavras e algumas frases com e eixo tenho me esmerado nisso. Notas e palavrões  escritos no vento: Também vendo quinquilharias variadas. Sou letrista que canta. Me dá licença! Quero entrar no seu campo de sentidos, para ver se minha vida ganha algum. Agora estou, estamos a caminho de Tonande Porã: Salve Zambi.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PIAF e BRECHT, a cor vermelha do sangue azul do teatro brasileiro





FONTE: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/11417_UM+ENCONTRO+QUE+ECOA+E+TRANSCENDE

 A cor vermelha do sangue azul do teatro Brasileiro. Ou Brecht e Piaf visitando Paulo Eiró.


Edith Piaf, nascida Edith Giovana Gassion ( 1915-1963), foi a mais famosa e influente da canção francesa, conhecida em todo mundo civilizado, mesmo pelos que não falam francês.

Eugen Berthold Friederich Brecht (1898-1956) Nome artístico, foi um dos melhores poetas da língua alemã. E também seu dramaturgo e teórico de teatro mais importante. E o mais influente encenador do século XX.
                                                                                              Livreto SESC

A vida em vermelho: Brecht e Piaf, com Leticia Sabatella e Fernando Alves Pinto
Texto de Aimar Labaki,
Direção de Bruno Perillo.
Direção Musical de Lincoln Antonio
Músicos: Demian Pinto- Piano, Zeli Silva –Contrabaixo, Giba Favery- Bateria e Percussão.

Eu e outros professores e professoras periféricas fomos ao SESC Santo Amaro assistir entusiasmados a peça mais recente de Aimar Labaki. A vida em vermelho: Brechet & Paif. Um encontro fictício entre a cantora francesa Edth Piaf e o dramaturgo e encenador germânico Berthold Brecht.
O que vai refletido aqui, está baseado no texto do caderno de apresentação do espetáculo e uma recepção de um espectador ativo. Muitas das terminologias utilizadas constam nesses materiais.  Meu objetivo continua sendo esgarçar as telas dos cânones artístico-culturais das elites brancocêntricas para fazer emergir novas imagens e sons, capazes de ultrapassar o véu que nos separa e nos torna estranhos a nós mesmos. Segundo Caetano, já parafraseando um num sei quem: “Só é possível filosofar em alemão”. E talvez escrever canções só em língua francesa.
Uma cultura teatral de elite agoniza hoje no Brasil, estamos assistindo então as buscas por refugio dos detentores de uma cultura artística vinda da Europa no século XIX e que se prolongou com vigor aqui até a década de 1990. Agora seus últimos suspiros. Sua respiração é feita  por aparelhos.  Um desses aparelhos é o SESC São Paulo. Um dos seus médicos mais primorosos e resilientes é Danilo dos Santos Miranda.
O tempo idealizado do refugio é a Europa do entre e pós guerras.
Brecht (Fernando Alves Pinto) cantava suas próprias de parcerias com Kurt Weil, aqui traduzidas por Cacá Rosset.  Piaf (Leticia Sabatella) também canta suas e de outros.  Tudo tem cunho didático, facilitação de Brecht e Piaf para gente inculta, tal como somos vistos, desde que a tal elite fez contato visual e cultural conosco há alguns anos.
Um trio de músicos brancos, dois solistas iguais. Ao que parece apenas um dos camareiros era negro.
O texto de tão leve e pretensamente didático, chega a ser leviano. Reduz o contexto altamente complexo da guerra fria e transito épico de Brecht de um extremo ao outro daquele mundo cindido. Também esquece o fato da industrialização da cultura musical e teatral naquele tempos e  quase arrasa as personas de Piaf e Brecht.

FONTE: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/11417_UM+ENCONTRO+QUE+ECOA+E+TRANSCENDE
As canções intercalam os textos e os arranjos são eficientes, não sobra nem falta. Algo no teor recorrente e mais geral do texto nos dá a entendem que Brecht era um “mulherengo” típico, enquanto Piaf parece ter preferência especial pelo sofrimento. A vida e o acaso são bem mais complexos que isso. Muito mais que tensão entre razão ( Brecht) e emoção (Piaf).
No caderno de apresentação Labaki sustenta que se recusa ao dualismo.  
Seria a síntese? Aparentemente  Breceht e Piaf ocupam lugar antitético na construção da cultura europeia do século XX. (Alguns hão de reafirmar com razão e alguma raiva: Na cultura universal, seu silvícola) Eu admito que sou um verdadeiro bárbaro nigro diante de um suposto prédio romano blanc expandido.
A Chansson derramada e sentimental de Piaf em tudo dialoga com certas
tradições musicais afro-americanas e todos os elementos do Jazz atravessam e atravessam as concepções de Kurt Weill.
Labaki diz:“ Já vivi o bastante para saber que a vida não é preto e branco- a vida é cinza.
Ainda que estes tempos de radicalismos verbais e perplexidade parasilsante nos levem acreditar em dualismos pétreos”
Para Labaki o vermelho evocado em seus textos é como uma cor signo que liga Piaf à Brecht, “um vermelho imprescindível “, não aquele do “sangue nos olhos ou da guerra ininterrupta, mas o vermelho do sangue nas veias“.
Piaf é resumida em paixão e emoção, mas sua opção pelo afeto é racional ao passo em Brecht há espirito de sacrifico em prol da revolução nos palcos ou nas  ruas.
Algumas poucas piadas sobre a cultura digital, ao culto às celebridades e mais efetivamente aquilo que os dramaturgos contemporâneos podem oferecer, uma diversão boa e barata, em uma unidade avançada do SESC. Nenhuma dose de contradição ou calor humano prometida no caderno. Falta febre e sangue, falta vemelho-quente. Sobra o sangue azul-verde da friagem costumeira. E não mais o verde das matas nem dos olhos dos olhos da “mulata”.
Um suposto conflito entre duas psiques e experiências sócio culturais diversas não aflora, caminham em paralelo , mas não se tocam, não entercruzam. Mas parece possível supor que que sejam reconstruídos  num textos para incultos como nós, dois símbolos da cultura ocidental que fascinam as elites culturais brasileiras.
O germanismo e o francesismo podem ser entendidos como duas formas complementares de adesão cultural de diferentes tempos e setores das elites brasileiras entre os séculos XIX e XX. Na segunda década do século XXI, quando os silvícolas estão a porta e os pseudo-colonos foram definitivamente abandonados pelas suas metrópoles, parece não restar outra saída senão a idealização das (puras) culturas artísticas europeias do século XX. Mas que sejam leves e sem compromisso com as questões da sociedade brasileira contemporânea.
     
Mesmo na periferia atual de sampa, quando uma artista quer comprovar sua ascensão estética decora ou memoriza ao menos uma canção de Edith Piaf. Na primeira oportunidade trata de exibir tal erudição nos saraus. Sim, o contraste está feito, se pode ser periférica, mas não inculta como a massa esquálida de restos silvícolas.      
Leticia Sabatella se ergueu um tanto além das figuras típicas da elite cultural brasileira. Fez crítica ao patrão, se irmanou de mulheres negras, andou em acampamentos. Recusou o lugar destinado as celebridades televisivas convencionais. Parabéns.
Os espetáculos deles, desde os anos 1960, devem muito a televisão, assim como o teatro deve a telenovela. Tarcísio Meira nosso herói bonitão dos anos 1960-1960 advindo do teatro para a TV e daí novamente para o teatro, foi quem disse isso em uma recente entrevista de radio: “A telenovela é, no Brasil,  o verdadeiro teatro dos pobres”.
De fato o teatro e a dança têm sido guardados por eles como se fossem reservas especiais de vinhos importados das altas Europas. O humanismo, embora contraditório funcionava como uma espécie de freio das perversidades modernas. Agora que os valores do ocidente foram definitivamente para o vinagre, as elites brancas daqui se vêem obrigada a repartir algo que restou da ideia de liberdade e civilidade, mas não nos franquiam as mesas e nem nos oferecem as melhores safras. Creio que pensam em facilitar nossa digestão, afinal nosso paladar não poderia apreciar gostos de tal requinte. 

A alta classe média paulistana, inclusive aquela ligada  a produção artístico-cultural privada ou estatal, via de regra se nega, a se ver como elite. Eu entendo essa recusa. Nos discurso oficiais ainda paira a ideia geral esse país de verdes matas, cachoeira e cascatas nunca houve terremoto e nem antagonismo de classe. O racismo só pode ser entendido como autoflagelo de negro e índios. Todos são mestiços de alguma forma e branco mesmo nunca houve. Os brancos, em certas ocasiões também se recusam a sê-lo.  Todas as pesquisas recentes que indicam sistemática concentração de poder, prestígio e renda entre os descendentes de europeus são, na verdade, calunias ou sandices de pesquisadores da FGV, SEAD, IPEA, IBGE. 
Ao início do século XX, a cultura musical erudita havia passado uma régua sobre todas as formas de expressivas de musicalidades da Europa ocidental. A forma canção na França somente se exprimia de forma agonizante como cantiga de rua e de prostibulo, mas ainda assim já parecia depender de conteúdos vindos da musica negra estadunidense. A pardal, Piaf então é símbolo de uma França que agoniza sob a pressão germânica. Labak se lembrou bem disso.
  
Ao fim Piaf é resumida em paixão e emoção, mas sua opção pelo afeto é racional ao passo em Brecht há espirito de sacrifico em prol da revolução nos palcos ou nas  ruas.
Algumas poucas piadas sobre a cultura digital, ao culto as celebridades e mais efetivamente aquilo que os dramaturgos contemporâneos podem oferecer, uma diversão boa e barata, em uma unidade avançada do SESC. Nenhuma dose de contradição ou emoção prometida no caderno. Falta febre, calor e sangue vemelho-quente. Sobra o sangue azul-verde da friagem costumeira. E não mais o verde das matas nem dos olhos dos olhos da “mulata”.
Um suposto conflito entre duas psiques e experiências sócio culturais diversas não aflora, caminham em paralelo , mas não se toca, não entercruzam. Mas parece possível supor que que se encontram reconstruídos  num textos para incultos como nós, dois símbolos da cultura ocidental que fascinam as elites culturais brasileiras.
O germanismo e o francesismo podem ser entendidos como duas formas complementares de adesão cultural de diferentes tempos e setores das elites brasileiras entre os séculos XIX e XX. Na segunda década do século XXI, quando os silvícolas estão a porta e os pseudo-colonos foram definitivamente abandonados pelas suas metrópoles, parece não restar outra saída senão a idealização das (puras) culturas artísticas europeias do século XX. Mas que sejam leves e sem compromisso com as questões da sociedade brasileira contemporânea.
     
Mesmo na periferia atual de sampa, quando uma artista quer comprovar sua ascensão estética decora ou memoriza ao menos uma canção de Edith Piaf. Na primeira oportunidade trata exibir tal erudição nos saraus. Sim, o contraste está feito, se pode ser periférica, mas não inculta como a massa esquálida de restos silvícolas.      
Leticia Sabatella se ergueu um tanto além das figuras típicas da elite cultural brasileira. Fez critica ao patrão, se irmanou de mulheres negras, andou em acampamentos. Recusou o lugar destinado as celebridades televisivas convencionais. Parabéns.
Os espetáculos deles, desde os anos 1960, devem muito a televisão, assim como o teatro deve a telenovela. Tarcísio Meira nosso herói bonitão dos anos 1960-1960 advindo do teatro para a TV e daí novamente para o teatro, foi quem disse isso em uma recente entrevista de radio: “A telenovela é, no Brasil,  o verdadeiro teatro dos pobres”.
De fato o teatro e a dança têm sido guardados por eles como se fossem reservas especiais de vinhos importados das altas Europas. O humanismo, embora contraditório funcionava como uma espécie de freio das perversidades modernas. Agora que os valores do ocidente foram definitivamente para o vinagre, as elites brancas daqui se vêem obrigada a repartir algo que restou da ideia de liberdade e civilidade, mas não nos franquiam as mesas e nem nos oferecem as melhores safras. Creio que pensam em facilitar nossa digestão, afinal nosso paladar não poderia apreciar gostos de tal requinte. 
Eu e outros professores e professoras periféricas fomos ao SESC Santo Amaro assistir entusiasmados a peça mais recente de Aimar Labaki. A vida em vermelho: Brechet & Paif. Um encontro fictício entre a cantora francesa Edth Piaf e o dramaturgo e encenador germânico Berthold Brecht.
A alta classe média paulistana, inclusive aquela ligada  a produção artístico-cultural privada ou estatal, via de regra se nega, a se ver como elite. Eu entendo essa recusa. Nos discurso oficiais ainda paira a ideia geral esse país de verdes matas, cachoeira e cascatas nunca houve terremoto e nem antagonismo de classe. O racismo só pode ser entendido como autoflagelo de negro e índios. Todos são mestiços de alguma forma e branco mesmo nunca houve. Os brancos, em certas ocasiões também se recusam a sê-lo.  Todas as pesquisas recentes que indicam sistemática concentração de poder, prestígio e renda entre os descendentes de europeus são, na verdade, calunias ou sandices de pesquisadores da FGV, SEAD, IPEA, IBGE. 
Ao início do século XX, a cultura musical erudita havia passado uma régua sobre todas as formas de expressivas de musicalidades da Europa ocidental. A forma canção na França somente se exprimia de forma agonizante como cantiga de rua e de prostibulo, mas ainda assim já parecia depender de conteúdos vindos da musica negra estadunidense. A pardal, Piaf então é símbolo de uma França que agoniza sob a pressão germânica. Labak se lembrou bem disso.
A Piaf de Labaki está acocorada sobre  aquela recentemente vista no cinema, mas é mais magra e bem menos complexa. 
Paif e Brecht agora são de todo mundo, inclusive daqueles que pertecem ao mundo incivilizado.    A pouco mais de 500 mestros do SESC, fica o Teatro Paulo Eiró, um dos poucos postos avançados da cultura teatral. Paulo Eiró foi um dramaturgo paulista da segunda metáde do século XIX, vivia em Santo Amaro, uma comunidade modesta, numa província pobre. São Paulo de anteontem. 
O teatro se refugiou na telenovela durante a ditadura, pelo visto a telenovela está se refugiando no teatro na era do trumpismo e temerismo. Mas a culpa há de ser nossa, os incultos.