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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O velho Negri nas beiras da metrópole

https://www.youtube.com/watch?time_continue=81&v=enZISbyxgGU

 Invisibilidade histórica da Multidão no Brasil: a violência racial e a desmemoria das lutas negras


Salloma Salomão Jovino da Silva[1]


O escravo não é visto como indivíduo, mas como multidão.
Nelson Werneck Sodré

Escrevem da Jamaica: Os negros recusam trabalhar, e temos aqui todos os sintomas de insubordinação, e toda razão para recear uma revolta geral. Já se efetuaram várias tentativas incendiárias e a ilha acha-se ameaçada de uma tragédia tão sanguinolenta e horrível como a de São Domingos.
Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 21 de maio de 1835.

É certo que, se há um mundo por vir, ele está em disputa agora, no entanto é preciso resistir ao desejo controlador de projetar, desde a ruína deste, aquilo que pode vir a ser o mundo que vem. 
Jota Mombaça

Sessenta mil pessoas sofreram homicídio no Brasil no ano de 2014, as taxas de jovens negros mortos violentamente, em todos os Estados da federação, são absurdamente maiores que a de brancos jovens ou da mesma faixa etária. Não se trata de buscar que brancos e negros morram igual, mas de mostrar que morte de gentes desimportantes tem sido, em parte, uma constante da biopolítica de Estado no Brasil, que agora assume ares de calamidade, sem que a sociedade nacional e internacional se dê conta da sua gravidade, justamente porque atinge a multidão composta pelos mais pobres, entre os quais os negros e negras.
Quero me apresentar. Salloma Salomão Jovino da Silva, professor de História, intelectual periférico e um dos 52% dos descendentes de africanos que vivem no Brasil atualmente. Viver no Brasil é correr risco, pensar o Brasil é risco duplo, de ser silenciado física e simbolicamente, antes mesmo de ter emitido qualquer fala ou pensamento que ponha em risco a ordem.
Considero ótima oportunidade para um exercício interpretativo sobre a sociedade brasileira atual. Tenho plena consciência dos perigos. Podemos fazer isso olhando a longa duração da formação da nação brasileira, como também termos em vista questões atuais, suscitadas pela contribuição do pensamento de Antonio Negri em sua breve passagem pelo Brasil em 2016. Ele, com o vigor de um jovem ativista, visitou universidades, frequentou centros culturais e se deteve atencioso em simples rodas de conversas. Antonio circulou quase anônimo por salas obscuras de antigos clubes étnicos elitistas, agora desativados, onde estabeleceu contatos diretos sem mediadores raciais com a juventude urbana e intelectuais marginalizados. Fez isso com a mesma desenvoltura, sensível interlocução e dialogia crítica de quando envolvido por representantes da elite acadêmica paulista e carioca.
O clima sociopolítico que se instaurou recentemente no país assombra uma parte da sociedade brasileira, enquanto outra se regozija com sangue nos olhos e difunde percepção de que a principal meta da luta política é usar o Estado para atividade privada e o seu aparato para revanche ou vingança. Ambiente de medo, desmonte e incertezas que se arrasta desde o início da trama teatral que levou à destituição da presidente Dilma Rousseff e à ascensão do atual presidente da república. O ilibado senhor Michel Temer apresentou quarenta ministros brancos do sexo masculino, e uma mulher negra foi chamada às pressas, quando as nomeações chapas-brancas já estavam consolidadas.
Agora sabemos que a era Collor-Itamar-FHC foi apenas um ensaio mal organizado de tudo aquilo que as elites reacionárias modernas brasileiras são capazes de fazer em curto espaço de tempo.[2]
Tendo isso em vista e em função do recrudescimento do conservadorismo político atual, utilizo um eixo especificamente racial da reflexão de Michael Hardt e Antonio Negri[3] como disparador para construção de um argumento em torno da ideia de utilização da violência sistêmica como forma de manutenção do racismo antinegro, subentendido aqui como hegemonia das elites eurodescendentes no Brasil. Faço isso abrindo também um canal de diálogo com um texto da ativista antirracista Jota Mombaça, extraindo dela um potente fragmento, apresentado a seguir.
Ao tratar de racismo institucional “típico”, como nos Estados Unidos e África do Sul, em o Império, Negri e Hardt utilizam o termo “Supremacia Branca”. Efetivamente, no Brasil, as elites jamais haviam construído argumentos públicos em torno de supremacia de minoria branca, embora ela possa ser comprovada pela empiria e pelos dados, em todos os campos da vida social.[4] Entretanto, recentemente um político profissional de formação militar do Sudeste, francamente racista e reacionário, tem evocado o racismo antinegro e anti-indígena como ideologia e plataforma eleitoral, obtendo, com isso, relativa aceitação e apoio midiático.
Estrategicamente há aqui uma sobreposição às narrativas nacionalistas de identidade brasileira, e que são sumariamente mencionadas, apenas pano de fundo. Ou, no seu conjunto, podem ser vistas também como constructo social que objetivam comprovar a inexistência do racismo e legitimar a exclusividade do poder, prestígio e mando das elites brancas. Nesse caso farei isso invertendo não o método, mas o foco do que foi sugerido por Antônio Sergio Guimarães em Como trabalhar com “raça” em sociologia.[5]
A perspectiva intelectual e político-social engajada da vida e obra de Negri contrasta com um amplo espectro da comunidade intelectual brasileira contemporânea, especialmente fechada em escritórios das instituições de pesquisa acadêmica, encastelada, arrivista e medrosa. Algo que, em parte, se viu nos eventos de recepção à Negri. Qual seja? Em sua absoluta maioria jovens homens brancos letrados, cortesões refinados, dialogando com o convidado e apenas consigo. Situação na qual se postam de costas para a sociedade. Seu elitismo em bloco se expressa num silêncio ensurdecedor ante o quadro de violência institucional e sistêmico que vou desenhar a seguir.
Tento um contraponto com Michael Hardt e Antonio Negri, no tópico sobre formação dos Estados nacionais na Europa, pensando nas peculiaridades da constituição do Brasil, enquanto Estado-nação e os lugares históricos, simbólicos e sociais destinados aos descendentes de africanos nesse arranjo neocolonial. Não se trata da aplicação das fórmulas binárias e antagônicas negro-branco, colonizador-colonizado, elite-povo, mas da constatação cotidiana da sujeição histórica, medida pela incidência das profundas divisões sociais, culturais, políticas e econômicas que tornaram a sociedade brasileira aquilo que efetivamente é: desigual, violenta, conservadora, sexista, cristã e racista.
Meu objetivo é sustentar a ideia de que as elites intelectuais contemporâneas brasileiras, por conservadorismo, medo e interesses na manutenção da ordem social e da unidade nacional, são coniventes, senão as operadoras, da cultura de violência estatal e paraestatal que tem vitimado de forma radical, desumana e vergonhosa as populações negras no Brasil e, sobretudo, a juventude negra urbana. Trata-se da peculiaridade do racismo brasileiro. Nunca dizer seu nome nem enunciar seus meios e fins. Mas medrar sempre, para manter-se intacto.
Dados estatísticos sobre a violência demonstram de forma contundente que a percentagem de morte dos jovens negros vem aumentando exponencial e progressivamente, ano após ano. Todos os mecanismos legais e políticos formais têm sido acionados para barrar esse processo contínuo de extermínio. No entanto, sem sucesso.[6] Pode ser considerado um simples jogo de cena da classe política, mas foi aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional Brasileiro. Em 2015 a comissão terminou o relatório. São 283 páginas de texto, onde, além dos dados e análises, constam também sugestões ao poder executivo de medidas imediatas, de médio e de longo prazo. Mas o Congresso em resposta prática e rápida tratou de liberar, de forma irrestrita, a utilização de armas de fogo para a população civil.
Ainda em diálogo com Negri e Hardt, meu argumento central incide sobre duas ideias que venho desenvolvendo para compreender melhor as formas culturais afro-brasileiras e seus confrontos com a hegemonia econômico-cultural brancocêntrica. Uma primeira elaboração é aquela que diz respeito à modernidade reacionária[7] das elites brasileiras, e a segunda versa sobre a cultura e a pedagogia da violência como formas de controle social das populações subalternizadas.
Sobre a modernidade reacionária das elites é preciso lembrar a qualquer estrangeiro recém-chegado que um discurso muito eficaz sobre a identidade brasileira tem sido manipulado pelo Estado e pelas elites intelectuais desde a primeira metade de século XX, no sentido de mostrar uma imagem de harmonia social ou de “hierarquia social de consenso”, por isso parece quase nunca tensionada. A ênfase na permeabilidade étnica, no hibridismo biológico-racial e plasticidade cultural favorecem, em tese, a não existência de racismo. Em outras palavras, mesmo hoje ainda há muita força na imagem do Brasil como Estado-nação cuja identidade nasce do encontro fraterno de populações originárias (índios), negros (africanos escravizados) e brancos civilizadores. A esse idílio os políticos e intelectuais, não apenas conservadores, passaram a chamar de Democracia Racial Brasileira. Forja imagética da identidade, ficção interna e externa. Toda crítica a essa projeção é rechaçada como alienígena, antinacional, racista ou divisionista. Ao não poder responder a um coro de intelectuais renomados, as vozes dissonantes são silenciadas.
Pensadores estrangeiros, ou mesmo nacionais, cujas visões sobre o Brasil foram moldadas por textos, canções, filmes fundamentados nessas construções ideológicas, ainda encontram como fonte Gilberto Freyre. Mas uma forte corrente interpretativa neo-freyreana emergiu em pesquisadores como Peter Fry (2005), Ivone Magie (2006), Lilia Schwarcz (2015), Hermano Viana (2001) e Livio Sansone (2001). Podem ser entrevistos como arautos da brasilidade autoritária e brancocêntrica do século XXI.
Temos oitenta anos de construção discursiva freyreana para alguns momentos de emergência da desarmonia, tensão ou dissonância do arranjo original das três raças? Certamente devem ficar arrepiados os estrangeiros mais propensos a ver o Brasil por tais lentes ocultistas, quais sejam, mitificação da mestiçagem como originalidade identitária, ante a emergência de narrativas dissidentes sobre a identidade una do Brasil. Historicamente, tais narrativas espinhosas são quadros marginais elaborados, geralmente, por pensadores afastados do poder estatal, acadêmico, econômico ou político.
Se o neocolonialismo europeu tem seu marco na Conferência de Berlim, em 1885, no Brasil ele começou mais cedo. Quero dizer, começou em 1808, com a chegada da família real portuguesa. Já se encontrava muito bem elaborado na produção intelectual de José Bonifácio de Andrada e Silva[8], iluminista português nascido no Brasil e o primeiro a construir uma tipologia do brasileiro ideal, na qual excluía os negros. Ao idealizar um Brasil racialmente homogêneo, como deviam ser as “nações modernas”, com refinados argumentos pré-eugênicos recomendava sua libertação e extinção gradual pelo cruzamento biológico coordenado, ou seja, fazia isso cinquenta anos antes da eugenia existir como pseudociência e ideologia. No Brasil foi muito bem assimilada por médicos sanitaristas e médicos psiquiatras, como Raimundo Nina Rodrigues, mas também se espraiou para o pensamento econômico, cultural e político. Pensando exclusivamente na literatura da segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, seria necessário identificar melhor os fios eugênicos que conectam as obras de Aloísio de Azevedo a Monteiro Lobato.
 Nas interpretações neofreyreanas sobre o império português no Brasil, pululam as loas dessa primeira etapa da “modernização” promovida pela Casa de Bragança, ao mesmo tempo em que a natureza própria dos projetos de inserção do Brasil no contexto das nações independentes é geralmente envelopado em um discurso francamente monarquista, antidemocrático e racialmente hierarquizante.
As mudanças e permanências estruturais e mentais nos permitem afirmar que as noções de modernização tecnológica e cultural elaboradas pelas elites têm tido como marcas fundamentais a constante busca de aprimoramento tecnológico produtivo e manutenção dos privilégios dessas mesmas elites. Embora cem anos separem as elites agrárias da independência de 1822 e os filhos das elites agroindustriais representadas pelo Modernismo de 1922, as conexões ideológicas e de classe/raça entre ambas já não podem mais ser negligenciadas. Como já argumentei recentemente:
A modernidade brasileira combinou tecnologia, cultura artística, políticas urbanas, industrialização, mas não abriu mão de velhas formas de colonialismo interno no trato com as populações pobres, indígenas e negras. Embora socialmente situada ao lado dos brancos pobres, nossa condução tem especificidades que não podem ser anuladas, justamente pela longa duração e historicidade dos racismos antinegro e anti-indígena. Os tataranetos dos paulistas quatrocentões sequestraram para si a ideia de modernidade europeia, aproveitando que seus pais e avós haviam feito fortuna combinando tráfico clandestino, escravismo altamente racionalizado e plantation. Nossa concepção nacionalista de modernidade tem estas matrizes: patrimonialismo, escravismo e racismo.[9]
Em segundo lugar, é meu objetivo sustentar a ideia de que as elites intelectuais contemporâneas brasileiras, por medo ancestral e interesses atuais na manutenção da ordem social e da unidade nacional, são coniventes com a cultura de violência estatal, que tem vitimado de forma radical, desumana e vergonhosa as populações indígenas e negras no Brasil. É isso que podemos interpretar quando confrontamos o silêncio dos setores médios, quando não seu clamor por mais violência racionalizada, e que, sobretudo, tem transformado em um inferno social a vida de um amplo setor da população composto exclusivamente pela juventude negra mais pobre e situada nas cidades mais urbanizadas.
Essa situação calamitosa, designada “Genocídio da Juventude Negra”, tem sido denunciada de forma marginal e silenciada pela mídia tradicional, com a conivência da classe média branca e das elites intelectuais, políticas e econômicas, predominantemente brancas – senão no traço fenotípico, brancas na percepção de mundo, que tem na Europa Ocidental o centro do cosmo.
Mais uma menina morta pela polícia militar do Rio de Janeiro em uma escola de um bairro pobre qualquer. Na semana seguinte os telejornais repercutem as mortes de policiais, para sustentar a ideia de guerra. Contra quem? Agora sabemos, o inimigo somos nós, a base hierárquica da população. A doutrina policial nos identificou como inimigos potenciais, e toda lógica de segurança é construída na ideia de que a polícia se alimenta de práticas de retaliação, vingança e raiva. Contra quem?
 Mulher negra arrastada pela polícia por quilômetros até morrer esfolada, uma mulher transexual abatida na viela, morta a pauladas, uma lésbica morta a coturnos másculos na rua. A imagem destes corpos fica amontoada num canto da tela aguardando nossa ação. E nada. Não repercute. Nas redes sociais vazam imagens de violência cotidiana contra gays e mulheres, lésbicas ou não, crianças e jovens negros.
Os chamados “formadores de opinião” jazem num silêncio ensurdecedor. Também mortos, agem como se vivessem na Bélgica. Herdeiros como somos da tradição ocidental, aqui a escala de valores propriamente humanos continua sendo homem branco, mulher branca, homem negro, mulher negra. Os povos originários continuam a ser quase que completamente ignorados em qualquer perspectiva, mas também a violência de Estado nunca cessou sobre eles, desde a época da “Guerra Justa”.[10] São idilicamente expostos em mostras fotográficas, filmes e exposições iconográficas em luxuosos centros culturais nas metrópoles, locais onde seus descentes trabalham em condições análogas à escravidão.[11]
Na bela sociedade cosmopolita contemporânea brasileira, os mestiços e povos originários são mencionados também em filmes comerciais e séries de TV, onde os protagonistas são, via de regra, homens brancos superletrados do Sudeste.[12] E a violência é nossa marca de longa duração, e nossa modernidade a sofisticou. Em termos de imaginário nacional continuamos a nos ver pelas pranchas romântico-modernistas de Tarsila, Freyre, Hollanda e Darcy Ribeiro. Essas telas canônicas se sobrepõem à nossa efetiva capacidade de cognição do real. Mesmo quando ela fura a tela, avança sobre nós, nos empurrando de volta, e nos mantemos impassíveis, conformados, impotentes.
Vamos resumir: o Brasil, como Estado nacional, foi formado por um episódio fortuito ocorrido na Europa, qual seja, a invasão de Portugal pela França napoleônica e a fuga da família real portuguesa para o Brasil em 1808. A declaração de independência, operada por um monarca da casa real portuguesa em 1822, não significou uma ruptura, mas, ao contrário, um arranjo político, continuidade do projeto colonial. O escravismo racial foi não apenas mantido como combinado com um projeto colonial interno, onde os negros eram ainda indispensáveis como máquinas produtivas, mas descartáveis como contribuição à formação do Estado nacional embrionário. Visando o embranquecimento biológico e cultural gradativo da população, os africanos e seus descendentes tornaram-se, pouco a pouco, “os inimigos de porta adentro”.[13]
Posteriormente, o golpe militar de Estado que suprimiu a monarquia e instaurou a “República dos Fazendeiros”, em 1889, implicou em novas continuidades, e não em ruptura da ordem social do absolutismo tropical. Os autoritarismos das elites modernizadoras, mais notadamente reacionárias, delimitaram todas as formas de ordem, poder e controle social, cultura e participação política ao longo do século XX. Um dos primeiros atos institucionais republicanos consistiu em impedir o voto das pessoas analfabetas. Num golpe de caneta, cerceou a participação nos pleitos eleitorais da maioria absoluta da população, sobretudo da população que até o ano anterior teria sido escravizada.
Ainda assim multidões de excluídos, em inúmeros episódios, desenvolveram práticas de contestação da ordem concebida pelas elites, e no limite de suas possibilidades elaboraram estratégias de integração social e acesso a direitos sociais básicos. As elites reafirmaram seu lugar com novos estigmas, violência estatal e inovadoras brutalidades, agora racionalizadas como política de trabalho e direitos parcos, segurança pública e saúde mental, educação e controle aprimorado das atividades artísticas e culturais, sindicais e políticas. Não há um só tópico socioeconômico, qual seja, emprego, moradia, saúde, escolarização, justiça, segurança, previdência em que as iniquidades não sejam comprovadas pelos dados coletados pelo próprio governo federal.[14]
Vou definir, ao meu modo, o que vem a ser cultura da violência. Por cultura da violência estou afirmando haver, por parte das elites políticas, um trato racionalizado e desumano, na longuíssima duração, para com negros, indígenas, mestiços e brancos muito pobres. Essa desumanização, advinda de uma alteridade distorcida e forjada pela ideologia de superioridade racial, atravessa colônia e império e se torna mais sofisticada, científica e desdobrada na era republicana.
No processo de modernização-urbanização-globalização tem sido reafirmada a exclusividade branca diante das classes subalternas formadas, prioritariamente, sobre descendentes dos dois grupos. Os racismos medram, mudam e se aprimoram desde a virada do século XIX até o presente ano do século XXI. Desde os anos 1980, há uma alta taxa de natalidade, por isso essas mortes não impactam a produtividade e nem reprodução do capital. Estou sugerindo que as mortes violentas têm tido o papel primordial de manter a qualidade de vida das elites sociais. Racismo tem sido política de Estado.
Divagando um pouco: Elikia M’Bokolo[15] nos ajuda a visualizar que, na passagem do século XVIII para o XIX, se desenvolveu na Europa toda uma construção cultural, em meio à qual foi concebida a ideia de uma humanidade geral e abstrata. Esse espelho europeu projetado frequentemente concorria passo a passo com as teorias de formação cromática da humanidade, que resultou em uma gradação evolutiva baseada na cor. No topo da pirâmide estariam os europeus. Isso coincide com a posição imperial-colonial global da Europa.
No Brasil, os fazendeiros fluminenses, mineiros e paulistas, tão cantados como nossos modernizadores, rapidamente se adequaram aos novos tempos e combinaram suas atividades produtivas com o comércio interno e clandestino de pessoas negras. Estes mesmos que fustigavam o Império, enquanto fomentavam a República das Oligarquias. Emília Viotti da Costa (2010), ao analisar o longo e complexo caminho da abolição da escravatura no Brasil, concluiu: “O arbítrio, a ignorância, a violência, a miséria, os preconceitos que a sociedade escravagista criou ainda hoje pesam sobre nós”.[16] Eu perguntaria a Viotti da Costa, pesam sobre nós quem, cara pálida? As novas elites tiveram que elaborar outras ferramentas, discursos e métodos. Jota Mombaça jovem ativista, coloca a coisa fria nos seguintes termos:
É, sobretudo, no controle sistêmico do trânsito de pessoas africanas livres e afrodescendentes que a polícia vai passar a operar, como braço do projeto colonial em sua versão moderna, garantindo a segurança das elites brancas e mestiças e o terror das comunidades empobrecidas e racializadas. O racismo contra pessoas pretas e pobres está, portanto, no DNA das polícias e das redes de controle e extermínio que se articulam em torno delas. Mas não teria sido necessário ouvir uma acadêmica branca para dar-se conta disso. Não é de hoje que movimentos políticos como Mães de Maio e Reaja ou Será Morta(o), assim como uma série de vozes implicadas nos ativismos e organizações comunitárias pretas, produzem conteúdo, denúncia e articulação para visibilizar o papel efetivo desses genocídios racistas e classistas nas gramáticas da dominação à brasileira. [17]
Em todas as revoltas do século XX os negros fizeram sentir seu protesto contra a nova ordem. Canudos, Vacina, Pelados, Chibata, Jagunços, Araguaia, Corumbiara, Altamira, Carandiru. Contudo, uma interpretação recorrentemente conservadora e brancocêntrica das lutas camponesas e urbanas, ocorridas no transcurso do século passado, geraram imagens prismáticas de conformismo, anomia, inconsciência política e desarticulação social das populações afro-indígenas e pobres.
Cerceados pelas políticas de embranquecimento, encarcerados em presídios e manicômios, com empregos e escolarização precários, durante o crescente processo de industrialização e desenvolvimento econômico, clubes sociais e associações negras eclodiram em todo o país com objetivo de fomentar novas formas de sociabilidade e integração, tal como nos informa Clovis Moura (1980). As elites responderam, com mais concentração de prestígio, poder e riqueza. Introduziram alta tecnologia e prescindiram paulatinamente da mão de obra tradicional e de baixa escolarização. Mantiveram os altos cargos e salários na indústria e nos serviços para funcionários, para classe média branca estabelecida ou os atribuíram aos europeus recém-chegados.
Negri e Hardt ainda atados a uma percepção crítica, mas não menos eurocêntrica, tratam o racismo contemporâneo como uma abstração absoluta, remetem-se ao fim do regime de apartheid como fim simbólico do racismo moderno e concluem reconhecendo que as formas de racismo sofreram uma mutação essencial do campo da biologia para o do relativismo cultural, mas continuam a progredir. Citam Deleuze e Guattari como tendo sustentado que “o racismo europeu nunca operou pela exclusão, ou pela designação de alguém como Outro”. A necessidade de uma teoria geral do racismo cria essa incapacidade cognitiva básica, de reconhecer as peculiaridades dos fenômenos que podem ter na origem a mesma fonte, mas deixam de ser o mesmo em diferentes contextos.
Pode ser que efetivamente no contexto da Europa Ocidental essa noção de alteridade rebaixada possa ter se efetivado como forma de tratamento racial. Mas no processo formativo das sociedades colonizadas o caso foi totalmente outro. Qual seja, a desumanização absoluta dos não brancos foi a base do desenvolvimento da cultura, da economia e das hierarquias sociais coloniais e pós-coloniais.


[1]“Salloma” Salomão Jovino da Silva é professor afro-mineiro, doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisador visitante do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL-PT). Músico, ativista antirracista e educador público no Centro Universitário Fundação Santo André, São Paulo.
[2] Desde que assumiu o poder, o presidente Michel Temer, não sem resistência, tem operado, de forma coordenada, um verdadeiro desmonte das tímidas políticas de bem-estar social, saúde pública, renda mínima, educação e combate à pobreza extrema. Flagrantemente, vem retirando investimento de todas essas áreas e criando um caos nas atividades produtivas, ao mesmo tempo que amplia o espaço do capital internacional, em áreas que antes eram reservadas às elites capitalistas locais. Temer rapidamente fez aprovar leis ordinárias de interesses marcadamente corporativos locais e globais. O faz com amplo apoio de um congresso comprovadamente o mais corrupto que o Brasil viu surgir desde o fim da ditadura. É apoiado pela mídia em geral, mas é especialmente suportado pelo grupo de comunicações Globo, reconhecido internacionalmente pela sua alta capacidade de decidir eleições e manipular a opinião pública.
[3] Hardt & Negri, Império, Op.cit.
[4] Veja, por exemplo, Carlos Hasenbalg, que ainda nos anos 1970 comprovou, em sua tese, a existência de práticas discriminatórias no mercado de trabalho em a Discriminação e desigualdades raciais no Brasil, Rio de Janeiro, Graal, 1979. Também Raquel Rolnik, que apontou para formas de discriminação racial e resistência cultural na formação urbana brasileira em A cidade e a lei. Legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo, São Paulo, Fapesp/Studio Nobel, 1999.
[5] Antônio Sérgio Guimarães, Como trabalhar com raça em sociologia, Educação e Pesquisa, São Paulo, v.29, n.1, p. 93-107, jan./jun. 2003.

[6] Segundo o Atlas da violência 2016, apresentado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea): “Com efeito, Cerqueira e Coelho (2015) verificaram que um indivíduo afrodescendente possui probabilidade significativamente maior de sofrer homicídio no Brasil, quando comparado a outros indivíduos. Essas diferenças são maiores no período da juventude (entre 15 e 29 anos). Aos 21 anos de idade, quando há o pico das chances de uma pessoa sofrer homicídio no Brasil, pretos e pardos possuem 147% a mais de chances de ser vitimados por homicídios em relação a indivíduos brancos, amarelos e indígenas. No período analisado (de 2004 a 2014), houve um paulatino crescimento na taxa de homicídio de afrodescendentes (+18,2%), ao passo que houve uma diminuição na vitimização de outros indivíduos que não de cor preta ou parda (-14,6%)”. Atlas da violência 2016. Nº 17. Brasília, março de 2016, p. 22, 23.
[7] O germanismo foi uma influente corrente intelectual no Brasil entre finais do século XIX e início do XX, que tomava o atípico caso de desenvolvimento da Alemanha como modelo ou paradigma de Estado nacional para o Brasil republicano. Incorporei aqui por similitude o conceito de modernismo reacionário, aplicado por Jeffrey Herf à República de Weimar e ao Terceiro Reich. Veja: Jeffrey Herf, O modernismo reacionário, tecnologia, cultura e política na República de Weimar e no 3º Reich, São Paulo, editora Ensaio: Editora da Unicamp, 1996.
[8] José Bonifácio de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
[9] Para alguns autores brasileiros parece ser muito complexa a ideia de colonialismo interno. Meu argumento é bastante simples. Tanto a vinda da família real portuguesa como a manutenção da ordem escravista, assim como a maior inserção das elites brasileiras de origem portuguesa no mercado mundial de coisas e pessoas, em nada denotaram qualquer ruptura da lógica colonial. Mas sua permanência mais atroz encontra-se no âmbito da cultura, da mentalidade e da manutenção do poder, prestígio e mando em mãos eurodescendentes por cinco séculos, em todo o continente americano.
[10] A antropóloga Vanessa Caldeira, companheira de trabalho em grupos de formação continuada de professores, em aulas que dividíamos, apresentava e interpretava um documento imperial joanino, publicado como edito real em 1808, que legitimava a “Guerra Justa contra os Botocudos” – Vanessa Caldeira, “História de Botocudo”. In: Marcos Rezende & Ricardo Álvares (org.), Era tudo mata: O processo de colonização do Médio Rio Doce e a formação dos Municípios de Aimorés, Itueta e Resplendor, Belo Horizonte, Aimorés, consórcio da hidrelétrica de Aimorés, 2007.

[11] Recentemente o Instituto Tomie Otake de São Paulo, sob curadoria da antropóloga Lilia M. Schwarcz realizou exposição em luxuoso prédio envidraçado do bairro de Pinheiros, cujo tema eram os mestiços dos primeiros tempos da colonização, com gravuras da época da ocupação holandesa em Pernambuco. Pinheiros apresenta um patamar superior ao da Holanda em termos de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), um dos mais altos do país.
[12] Menciono aqui uma recente série de TV, um filme épico no qual os personagens centrais eram os irmãos Vilas Boas, sertanistas ou indigenistas que, em pleno século XX, ainda encarnavam o mito dos paulistas desbravadores. Corresponsáveis relativamente conscientes da interiorização da ordem republicana para as regiões amazônicas.

[13] Ramatis Jacino, Transição e exclusão: O negro no mercado e trabalho em São Paulo pós-abolição – 1912/1920, São Paulo, Nefertiti, 2011.
[14] Tanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quanto o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) têm publicados dados e estudos anuais e periódicos sobre desigualdades estruturais e estruturantes no Brasil e sua incidência, sobre os quesitos cor, raça e gênero.
[15] Elikia M’Bokolo, África negra, história e civilizações, Tomo I, Salvador, Edufba, São Paulo, Casa das Áfricas, 2009.
[16] Emilia Viotti da Costa, A abolição, São Paulo, Editora Unesp, 2010, 9ª edição.
[17] Jota Mombaça, Rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência!, p. 03.