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Olhar/Mosaico em perspectiva de práticas e conhecimentos, políticas e artes africanas/diaspóricas. Apenas um biocaminho na esfera. Afim de experimentar toques e palavras, sons e ruídos, notas tortas e dissonâncias. Apalpando e sorvendo quase tudo, no cosmo, na Américafrolatina, quase na beira do Atlântico.Por desvelar e re-conhecer as partes e o todo na busca do estar pleno no mundo, enquanto for.

SILVA, Salloma Salomão Jovino da. Bio-caminho

salloma Salomão Jovino da Silva, "Salloma Salomão é um dos vencedores do CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA RUTH DE SOUZA, em São Paulo, 2004. Professor da FSA-SP, Produtor Cultural, Músico e Historiador. Pesquisador financiado pela Capes e CNPQ, investigador vistante do Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Orientações Dra Maria Odila Leite da Silva, Dr José Machado Pais e Dra Antonieta Antonacci. Lançou trabalhos artíticos e de pesquisa sobre musicalidades negras na diáspora. Segue curioso pelo Brasil e mundo afora atrás do rastros da diápora negra. #CORRENTE- LIBERTADORA: O QUILOMBO DA MEMÓRIA-VÍDEO- 1990- ADVP-FANTASMA. #AFRORIGEM-CD- 1995- CD-ARUANDA MUNDI. #OS SONS QUE VEM DAS RUAS- 1997- SELO NEGRO. #O DIA DAS TRIBOS-CD-1998-ARUANDA MUNDI. #UM MUNDO PRETO PAULISTANO- TCC-HISTÓRIA-PUC-SP 1997- ARUANDA MUNDI. #A POLIFONIA DO PROTESTO NEGRO- 2000-DISSERTAÇÃO DE MESTRADO- PUC-SP. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- CD - 2002 -ARUANDA MUNDI #AS MARIMBAS DE DEBRET- ICS-PT- 2003. #MEMÓRIAS SONORAS DA NOITE- TESE DE DOUTORADO- 2005- PUC-SP. #FACES DA TARDE DE UM MESMO SENTIMENTO- CD- 2008- ARUANDA SALLOMA 30 ANOS DE MUSICALIDADE E NEGRITUDE- DVD-2010- ARUANDA MUNDI.

sábado, 30 de setembro de 2017

Poéticas e aleatorias

com inveja de Espirito Santo, tenho me dado as poéticas:
Nosso amor
Só conheceu a seda no fim, quando agonizava.
Nas primeiras vezes que nosso beijo vingou
Havia pressa e medo
Desejo sem eira na beira da urbe.
Havia angustia demais.
Nem sei como amor pode brotar ali.
Insegurança e clandestinidade tanta.
Nosso amor era sem sobrenome conhecido
Só pode vir a lume, no limiar do dia
Posto que era amor feito de raiva e de fome.
Quando enfim deitou no linho de cânhamo
Ele foi lento, canábico e errante
Travesseiros de pena de ganso, sem quando.
Pra que?
Na maioria da vezes o amor que queremos abraçar,
Deve ser leve e lúcido,
O nosso não.
Veio em pé no ônibus, depressa e trêmulo.
Amor com letreiro Jardim Lucélia via Cocaia, Segunda balsa e Grajaú.
O amor dos outros era florido, cabelos soltos ao vento,
Amor de tão leve no cinema, quase bento, irmão sol, irmã lua..
O nosso veio meio sonolento
Depois de um dia de trabalho e quatro horas de aulas de literatura.
Catequese da professora em suas Marílias de Dirceu.
Amores já tão violentos de Gregórios epidermidos e tão ciumento dos mulatos.
Ao contrário deles
Nosso amor era operário
Terceirizado, pragmático e dividido
Feito de falta de tempo e salário.
Amor feito de míngua
Amor de hora marcada
E de relógio de ponto
Amor de café em barraca
De pinga pura e broqueis
De poemas perdidos de Cruz e Souza e canções samba-blues de Luis Melodia.
Amor festa na igreja do bairro
No parquinho de vila
Amor de bailinho black
Amor de brancos do cabelo ruim, querendo ser negros na quebrada.
Amor de lima Barreto,
Amor de negros retintos decepcionados com as irmãs claras dos anjos.
Amores cristianos e germanos demais.
Tão suburbanos amores e rudes Jones de Clara dos anjos.
Amor incapaz de ir além de canções de punhal de prata.
Amor que só sabe de cantigas negras de Katia de França
França negra vinda do norte,
Num gravador de k7 pago em prestações
Amor estrangeiro, feito de negações e preces de incréus
Na maioria das vezes nosso amor era confuso
Amor de pés na lama, ou limpando a casa no fim da semana.
Amor delicado e frágil
Amor tão bruto quanto maquinas da indústria farmacêutica
Amor de pabx
Avise a telefonista
Que palavra não morreu,
Mas o amor está hospitalizado.
Agora é vaga memória
Amor é antônimo de tudo que é jovem
Paixões que são talhadas na contenção dos carinhos
Então o Amor é só aquilo que sobra
Aquela energia resguardada apenas para o trabalho,
Amor de barro seco na sola dos sapato.
A primeira vez que o amor
Nos alcançou
Nos atracamos na grama
Entre carrapatos e arranhas
Depois vozerio dos parentes diante da tv.
Cama de campanha
Paixão de meia-água, desejo de meia légua
Casa de aluguel, mundo de quarto e cozinha
Nosso amor
Cresceu ao da sabor da arribação
Vestindo a roupa depressa e sem banho
Amor de dissidência e nunca tradicional
Amor sem raça pura
Nem cepa de sangue leal.
Sem mátria para descanso
Atravessou linhas de ferro
Correntezas e cordilheiras
Sem nunca ter saído daqui
Amor sem passaporte
Sem luxo, nem vintém
Amor que ainda vai andar pelos bairros
Quando nem mais amor houver.
Nem mesmo de ouvir falar.
Amor de resistência a morte por bala.
Amor de favela e escola.
Amor de impura brancura
Amor de afago bêbado e senzala.



Sobre Cralinhso

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

REP Pós Racionáis Mc's



REP pós Racionais
Cultura musical jovem contemporânea  no Brasil.
Nova cena da musica REP ( Ritmo e poesia).
Muitos amigos perguntam porque ainda não escrevi nada sobre a nova cena Hip Hop e especificamente sobre os novos expoentes da música REP. Respondo de forma incipiente e inicial a esse desafio aqui. Continuo afirmando que aqui não tenho propósito acadêmico, ou seja, não é meu objetivo discutir a Cultura Musical em uma perspectiva teórica, muito embora aqui a ali se possa o identificar elementos das teorias sociológica e antropologica da cultura no pensamento que desenho aqui. É importante frisar que quando isso ocorre, vem de maneira não intencional, mas por vício dos ofícios que abracei.      
Estão livres da estética, da poética e da ideologia criada e veiculada pelo grupo racionais.
O grupo Racionais criou um patamar de altíssimo nível em termos de musicalidade juvenil e periférica, entretanto se tornou um escola musical, que involuntariamente condicionou e empobreceu a produção musical brasileira por uns dez anos, por isso Ellen, Hachid, Projota, James Banto, devem ser comemorados, ouvidos e compreendidos sem a subestimação que a minha geração adotou em relação a GOG, MVBill, Racionais, Pavilhão Nove, DMN, Potencial 3, Thaide e DJHum, .
Explicando melhor, a imagem de Racionais foi absorvida de tal forma pelos jovens que sonhavam com um espaço social através da musica que se tornaram um modelo a ser imitado, reproduzido, imitado. A coerência apresentada pelo discurso, musica, batida e imagem do Grupo dificilmente pode ser imitada sem se tornar uma caricatura pelos grupos posteriores, porque acho que foi fruto de um conjunto de fatores interno ( características e habilidades pessoais dos componentes do grupo) e fatores externos: contexto social, mudança dos habito de consumo da população jovem e pobre, emergência dos movimentos sociais negros na agenda política e seu impacto na esfera pública. Encontro e trocas simbolicas entre lideranças do Movimento Social Negro e lideranças do Movimento Hip Hop.                    
Um luta interna acontece simultaneamente no âmbito da cultura contemporânea, a disputa entre mercado de consumo cultural (espetáculo, entretenimento, lazer, comunicação, estilo de vida, etc) e contra-cultura ( coletivos, bandos, sócio-experiências, transculturas, mini-revoltas, etc) a juventude e a principal personagem dessa historia e habita os dois lados dessa luta. São jovens que hoje estão no comando de editoras, gravadoras, empresas de entretenimentos e comunicação em geral e no lado inverso, no mundo do consumo (mesmo em sociedades fragilmente inseridas no mercado global), são jovens promotores e vítimas da violência urbana, são jovens os ativistas mais incisivos da pequenas revoltas que eclodem pelo mundo.   
A juventude dos países em desenvolvimento é, como se sabe, o maior contingente populacional mundial e isso a coloca na mira do mercado de consumo internacional. O apelo ao consumo de roupa, bebida, games, equipamentos eletrônicos, automóveis e comportamentos, convive com a expansão sem precedentes do consumo de cocaína, maconha e crakc.  Esse padrão americano-europeu de consumo que finalmente se mundializa não pode suportar o fato de que o nível de emprego aqui, na Índia e no Chile  ainda é baixo e os salários nem se fala (embora tenha havido mudanças, que são constantemente capitalizadas pelo partido no poder).

Nova Iguyaçu e a baronesa de Jacutinga



Impressões visuais e outras leituras de mundo.
O Taxi atravessa a linha vermelha e mergulha na Dutra e lá vem São Duque de Caxias, João do Meriti, Mesquita. O taxista é divertido e politizado, tem uma energia boa quando fala, é positivo, mas quando esplanou elogiosamente sobre os matadores da Baixada que foram incorporados a paisagem humana como algo natural ou melhor como “mal necessário contra a praga da bandidagem” , me decepcionou. O taxi avança,  Meriti é familiar pela letras de samba e do compositor Serginho Meriti, Duque de Caxias, tem Xerem, logo Zeca Pagodinho  é referência de uma cultura musical cuja matriz no samba-de-roda da tias velhas ancetrais da Ciata, mas a cidade é também local da ação de Tenorio Cavalcante e do próprio Duque...que coisa haja, cultura autoritária.
Depois Belford Roxo:  é revista Cruzeiro, fragmentos, lembranças imagens registradas no início da adolescência fim da década de 1970,  sei lá de onde emergem, registros dos linchamentos. Violência e pobreza, as construção do mito das  “classes perigosas”. Geografia monótona das periferias, tal como a escravidão homogeneizava, a miséria regula os sonhos. Como diriam os Manos: Periferia é periferia”
O Hotel Mont Blanc, é dos poucos prédios altos, quer ser francês, queriamos todos ser poliglotas. A cama é boa, a comida é ótima,  agora eu tomo café toda manhã. A visão panorâmica do Mont Blanc revela um planalto entre dois morros e poucas arvores. Uma estrada de ferro e outra asfáltica, os rios mortos, as ruas estreitas, os caminhos condicionados por esses limites, que só podem ser transpostos por viadutos, as ruas centrais são apinhadas de carro e gentes, nas calçadas de meio metro de largura todos se oprimem.
Tendo em vista a questão  do pertecimento, podemos buscar uma perspectiva de longa duração podemos apreender um pouco da trajetória temporal dessa região para além dos linchamentos da década de 1970, dos grupos de extermínio dos anos 80-90-2000. Flavio dos Santos Gomes tem se ocupado da visão da escravidão para além do mundo senhorial, por isso trouxe para cena historiográfica as revoltas escravas, e formação de quilombos  no Rio de Janeiro e mostra como Nova Iguaçu tinha um papel importantíssimo no trânsito de libertos e fugitivos durante todo século XIX, Mostra também como os quilombolas (semi-urbanos) tinham imprescindível na função na economia interna da capital do império, fornecendo produtos manufaturados em tecidos rústicos, couro, animais domésticos e alimenticios in-natura, como legumes e  hortaliças além de carvão, madeira, etc.
                  
Imersão em NI
A- Contatos com Equipe SEMED.  

Os corredores da SEMED tem trânsitos diversos, o cheiro de café aponta para cozinha e o refeitório. A porta da cozinha dá para uma área livre, para onde correm os fumantes. Os corredores são estreitos, as salas são pequenas. Há telhas de amianto na sala do aquário onde ficam os Agentes Pedagógicos apinhados, sobre uma mesa olham, usam os três computadores pensam  e falam baixo.                  Geralmente os funcionários acolhem a equipe do IPF muito bem, solicitando, consultando, pedindo opinião.

B- Acompanhamento da Oficina de Uniforme na Escola Chaer com Eugênia e Equipe da Sec de Mobilização. ( programação)

Minha primeira atividade  consistiu em acompanhar a atividade da Equipe de Mobilização, Cris, Ronaldo, Euclides  e Eugênia (PIJ) na Oficina de Uniforme  em NI,com a Escola na realização E.M. Chaer K. kalaoum.     
Uma bairro distante, caraterisitcas semi-rurais. Lotes pequenos murados, casas baixas de alvenaria em tijolos baiano, com telhas de amianto. Área com algum tom de verde verde, animais nos pastos do  no pé da Serra de Madureira.  Enquanto Eugênia fala eu cochilo, estamos na estrada de Madureira, defronte um venda cujo prédio tem características do anos 30, paramos, nos informamos, estamos perto. Chegamos avistamos Cris, Ronaldo e o Designer de roupas que não gravei o nome, acolhimento formal. No terreno ao lado tem um CIEPS que parece deserto e bem cuidado. 
Terreno de uns mil metros quadrados, um 3000 metros de área construída, um tenda de lona-vinil, alguns monitores fazem atividades artísticas com as crianças de ensino fundamental. Uma pequena quadra, salas pequenas sem janelas com “KOBOGOS”, piso de cimento queimado, 7 salas de aula, , 8 funcionários administrativos, uma sala de leitura e computação.     
Crianças dóceis, negro-mestiços na sua maioria, se chegam  e fazem as atividade por mais ou menos 3 horas. Brincam entre si, falam sobre a atividade que vão fazer, querem influenciar na escolha do uniforme. Escolher os modelos, recortar, montar, pintar,mais de 20 crianças entre 8 e 14 anos. Dois deles muito altos, um negro e outro mestiço de índio são também os mais velhos, em defasagem idade-série, porque? Interagiam muito bem com os demais.      
Alguns pais passam, olham, param, outros chegam de bicicleta, enquanto  funcionários de uniforme laranja (com logomarca da prefeitura) fazem a manutenção da  pintura . A escolha do uniforme escolar nada mais era do que um cardápio de camisetas e calças sobre as quais podiam optar pela cor.
Eugênia demonstra bom trânsito com a comunidade em geral, e com as crianças em particular. Cris, Euclides e Ronaldo tocaram bem atividade, embora não tenha conseguido precisar o objetivo pedagógico da ação. Os professores  e funcionários ficaram a margem de todo o evento.

C-  Reunião Equipe do IPF no campo. (programação)
Nossas reuniões ( equipe IPF) em campo se dão normalmente ao fim da tarde, duram em torno de uma hora e meia. Geralmente Cida conduz a reflexão sobre o resultado das ações, dinâmica que parece bem incorporada pelos outros membros. Entretanto  Eugênia somente participou de uma reunião especifica a convite da Cida, justamente par discutir os problemas do PIJ.

D- Reunião com Marli e discussão sobre o curso de Formação UFF. ( Demanda Local)
Primeiro tema foi tratado antes da chegada da Marly e dizia respeito ao desconforto da SEMED diante de alguns aspectos do Programa Escola-Bairro, sobretudo o cronograma.  
Sugestão da Cida, aceita pela Marly de trazer o Arroyo e construir uma ação de formação em três etapas, que leve em consideração a necessidade de uma discussão prévia com os professores da rede, onde se problematize o sistema “híbrido” que está em andamento na cidade e se aponte para definição de sistema ideal.       

E- Acompanhamento das atividades da SEMED nas escolas MURILO COSTA ( 22/05), THEREZINHA XAVIER (23/05), ANA MARIA RAMALHO.( programação).
A apresentação do BE seguiu  um mesmo padrão: Vídeo do BE, exposição oral Alceni, Cristina ou Silvia e uma segunda parte apenas os professores. O público composto por professores, pais e traziam questões sobre a obrigatoriedade de aceitação do BE, sobre o funcionamento do horário integral e de adequação da estrutura da escola a nova realidade. Atividades envolvendo uma média de 80 pessoas.       

F- Reunião com equipe SEMED para discussão e reformulação do Texto: programa Bairro-Escola. ( programação)
Forma realizadas duas reuniões gerais e outras com um pequeno comitê, designado Eu e Marta para redação final.
A primeira discussão, foi conduzida pela Cida e contou com a participação de umas vinte pessoas entre funcionários da SEMED e da Mobilização. A orientação inicial de ler e debater parágrafo por parágrafo mostrou-se inadequada.  Na segunda parte o texto foi livro da capo sem ritornelo, todos já estavam cansados  e apáticos quando a leitura findou. Uma comissão ficou de dar sequência de leitura e redaçaõ.
Chguei no ESMUTI no horário combinado, infelizmente na reunião de trabalho, Paulo , Sandra, Marcelo e Marta chegaram aos poucos e demasiado tarde. Em resumo eu e Marta em uma de leitura posteriores prosseguimos na leitura redação do texto guia BE. Cheguei aventar, silenciosamente, a hipótese de que não foi um ato fortuito, mas destinado a esvaziar a ação, mas os motivos eu não saberia. 
    
G- Reunião com equipe de Aps para preparação da formação par metas do Milênio ( demanda local) e Implantação das Escolas de
Horário Integral ( programação)
Uma primeira reunião com a equipe de APS designada por Alceni para realizar a exposição concernente a SEMED no evento. O grupo era formado por Ana Paula, Manuela, Eliezer e Jane, resultou em uma divisão de tarefas para pesquisas sobre este tema e a elaboração de um cronograma de ações.

H-Reunião com equipe de Aps, Marta e Jussara para organizar o projeto de Incentivo á Leitura( professores compradores).
A pauta girou em torno de um Festival Literário como desdobramento de um evento designado “Bienal” e  do empenho dos professores compradores de livro. A constatação de que nenhuma ação foi disparada para fazer com que os livros chegassem aos alunos e as escolas. Apontou-se para uma união de esforços para que os livros sejam entregues aos educandos e professores, a criação de um sistemática de formação voltada para  a questão da leitura/escrita.
     
I- Reunião com Cida e Alceni e equipe para equalizar agendas, diluir tensões, orquestrar ações.
Pauta sobre conflitos e divergências nem sempre reveladas da equipe e suas várias vertentes e a influência disso sobre o trabalho de todos. Sobre os problemas de comunicação das várias ações não comunicantes entre as equipes e demandas gerais colocadas ao IPF.   
Alceni tem se mostrado um parceiro respeitoso, revelando postura, colaborativa e propositiva embora com grandes dificuldades em imprimir uma dinâmica mais profissionalizada a SEMED.
   




Pré-Relatório Nova Iguaçu
Dias 19, 20, 21
Salomão Jovino da Silva
Escola de tempo Integral

Conforme acertado em agenda com Eliseu, viajei no Domingo dia 18. Heleno chegou no horário, hotel liguei para Marta, combinei carona,  dormi bem, acordei cedo.    Seguindo agenda acompanhei as atividades da escola de tempo integral no EMEF Janir Clementino e Ana Maria Ramalho no período da Manha, participara da Reunião da Metas do Milênio com Eugenia e discutir com Alseni a programação preliminar do segundo semestre.

Etnografando BE ( Dia 19)
Marta foi pontual na carona, chegou 7:30 em ponto. Chegamos na Escola a 8: 00. Janir Clementino é uma escola grande,  se comparada ao Saher ou  as demais escolas municipais  que visitei em NI.
Uma quadra coberta, e gradeada, sem muito espaço nas laterais. Um pátio interno de uns 200 m2, refeitório com bancos e mesas de concreto, o prédio tem dois pavilhões, mas apenas o da entrada tem dois pavimentos. Há dois banheiros na parte inferior, assim coma as sala dos professores, coordenador de turno, administrativo e direção e 8 salas de aula. No outro pavilhão mais 6 salas, que dão defronte a quadra. O barulho gerado no pátio e na quadra causa evidente incômodo nas salas de aula, atrapalhando sua rotina. 

As informações que colhi sobre a escola demonstram que tem 3 turnos, sendo que no período  da  e noite funciona o EJA. Há uma biblioteca muito precária com 6 estantes e títulos variados de livros infanto-juvenis, didáticos e  para-didáticos, além  de um conjunto de filmes diversos em vídeo, a funcionaria fez questão de atender bem e de demonstra que os livros estavam catalogados e que há uma procura espontânea e retorno dos livros em boas condições, algo a se levar em conta em uma criação ou avaliação de projeto de valorização da leitura e escrita. Ao lado da biblioteca há também uma sala de informática com equipamento do Positivo, embora desligados. Uma pequena sala lado da de professores tem um equipamento de som, qual seja, toca cds, mesa, amplificador, e duas caixas de som, uma radio interna, que poderia ser utilizada para fazer oficinas de comunicação com os alunos, uma vez que seja adaptada para esse fim, retirando-se materais de limpeza, equipamento de pedreiro, mimeografo, retro-projetor etc.

Quando eu e Marta chegamos, já estavam no Local, Marly, um grupo de Aps e estagiários de Ensino Médio e Superior, embora houvesse muitas crianças sentadas, pareciam não saber o que fazer com elas, todos se entreolhavam como esperando algum comando. Por volta 8:20 chegou um professor de educação física e mais alguns estagiários cm materiais  como rede, bolas etc.   As turmas ficaram sentada pelo pátio e quadra ate que por volta das 9:00 chegaram outras pessoas cm camiseta do Bairro escola. , supus que fossem da Séc de  Mobilização. Depois de uma performance de autoridade com culpa, castigo e xingos, esporros, etc.

Marta negociou e assumiu o comando assim que Marli deixou o local, rapidamente organizou algumas oficinas e distribuiu tarefas, ao todo haviam 21 pessoas entre funcionários da SEMED, estagiários, APs, além da Dulce que quando cheguei estava no local.As crianças foram reunidas na quadra e Marta explicou de forma sucinta como seriam as atividades. Quatro grupos ficaram na quadra e fazendo atividade com um jovem que me parecem ter habilidade sobre os jogos que as crianças participavam intensamente. Os outros três saíram acompanhados por estagiários e Aps, eu os acompanhei.
Passamos pelo centro comercial do bairro, lojas populares, sacolão, ônibus, tranporte alternativo,  vans etc. Lojas de artigo de umbanda, secos e molhados, tinha até inhame e cabaças secas.

Ao todo percorremos não mais do que dez minutos, as crianças alvoroçadas mantiveram-se no caminho sob o “comando” das estagiárias. No percurso uns guardas de trânsito auxiliaram nas travessias. Atravessamos duas ruas e alcançamos um quadra, localizada atrás de uma guarita da PM, no prédio pequeno com duas salas tem um brasão com duas espingardas calibre 12, com o lema , Treme-terra.

Esse local conhecido como DPO, consiste em um play-ground com equipamentos relativamente deteriorados em uma área de areia e outra pavimentada, há também uma bem conservadas quadra de esportes na qual os alunos foram divididos em dois grupos. Eliezer e Luana, estagiários de mobilidade de ensino médio e superior acompanhavam as atividades, desenvolvidas por dois professores de Ed Física do Viva Vôlei da Sec. Municipal de Esportes. Embora o sol, já fosse um pouco forte, as crianças respondiam bem aos exercícios de domínio de bola de vôlei.  

Eliezer, o Ap que acompanhava o grupo, muito gentilmente, me forneceu os horários oficiais das oficinas, ou seja, a grade de atividades previstas. Mas Luana, diz que Ana Cristina previu um dia que ela não sabe qual é para avaliação. Foram organizadas em reuniões que aconteceram na EF Ana Maria Ramalho e na Casa do Menor são Miguel Arcanjo, onde também foram  apresentadas as equipes umas as outras durante uma dinâmica organizada por Ana Cristina. Eliezer me diz que, até onde sabe, não há uma data previa definida para avaliação das atividades realizadas estas semana.

Voltamos a escola pela mesmas vias, as crianças foram ao refeitório e tomaram leite achocolatado com bolachas, enquanto outros.  Em uma das salas desocupadas (computadores) alguns alunos estavam participando de uma oficina de desenho. Um grupo enorme de adolescentes estava no pátio sem atividades, provavelmente aguardando o horário de entrada, o clima era mesmo do período da manhã.

EMEF Ana Maria Ramalho
Cheguei pr voltadas 13:30 hs. Todas as crianças e estagiários estavam no refeitório, Cristina com um microfone ordenava a saída das crianças para atividades a serem realizadas nas áreas externas da UE. A orientação era para que procurassem os locais com sombra porque não havia parceiros fechados na região, ficaram alocados no estacionamento, embaixo das arvores, a maioria estava com materiais escolares, durante uns vinte minutos as Aps estagiários produziram os crachás de identificação dos alunos,  e um grupo de esportistas, provavelmente da Sec. de Esportes próximas da quadra.

A escola é de alvenaria e tijolo baiano, coberta de amianto, existem janelas de vidros e foi construída cm dois pavimentos, no primeiro ficam as salas de aula, um pequeno pátio interno descoberto e o setor administrativo, no inferior apenas o refeitório.  Há vestígios de uma reforma recente e superficial. Há um evidente descompasso entre a imagem que se quer projetar do BE  e aquilo que se esta conseguindo implementar efetivamente.Em um dado momento chegou um grupo de pessoas com roupa diferenciada, uma delas que portava um bloco tomou nota do que Ana Cristina falou enquanto um outro fotografou algumas atividades. Me informaram que Alceni procurou por mim e já havia deixado a unidade quando cheguei.

De volta a EMEF Janir
Me desloquei a pé para o Janir, fiquei um pouco na sala dos professores com Marta e Silvia que a estava atendendo os pais que queriam fazer adesão dos seus filhos a ETI do BE.  Alceni apareceu ao celular, me cumprimentou, mas não falou comigo e saiu às pressas porque tinha reunião na SEMED. Dulce , Marta e Marly conversavam no meio do pátio , Aps estavam distribuídos entre os grupos, enquanto os Aps,  Emanuela, (lourinha ?) , Eliezer e outros também conversavam. Marta me deu carona, fui embora.
Cheguei na SEMED, Alceni me pediu para fazer uma apresentação escrita,  simples e direta para ser publicada me forma de folder sobre o BE. Pediu urgência diante do fato de que queria que fosse entregue aos pais e comunidade em geral nas próximas ações do BE, combinei de apresentar uma primeira versão ao fim do dia ou na quarta, ele disponibilizaria seu computador e sua sala para que pudesse desenvolver o texto, uma vez que ele não a estria na SEMED. Pedi para que avisasse Claudia, como também Mario, que é com quem ele divide o gabinete, eu chegaria as 8:00. Diante dessa demanda combinei com Eugenia de que ela acompanhasse o BE na terça feira, para que pudéssemos, oportunamente, avaliarmos dois primeiros dias do BE em Miguel Couto. Sai da SEMED por volta da 19 hs. Caminhei, noite, apesar da mídia os muros são baixos, nem todas as casas são gradeadas e as pessoas me cumprimentam no trajeto, raramente há viaturas da polícia. Hotel e cansaço, pedi comida, telefone casa, depois Eugenia, depois Elizeu é uma briga desligar os dois, comida. Flauta-exercícios la vem a tendinite,  agora novela, morfeu adeus.  

Terça-feira 20
Cheguei na SEMED as 8:10, alguns minutos depois Alseni . Ele me deu os parâmetros do texto e saiu, fiquei na sala com Mário que foi acolhedor, dirigindo-se a mim ocasionalmente para fazer observações sobre o cotidiano da SEMED. Marta e Eugenia, umas 11 horas chegaram. Mario  cedeu de computador  e saiu, falávamos enquanto as duas pensavam as oficinas do BE, de vez em quando em dava palpites, leitura de mundo dos estagiários, das crianças, de nós, do mundo.
Trabalhei no texto até 18:00 Eugenia deu Carona, rotina noturna, hotel cansaço.... 
O texto ( recorta e cola)
Folder sobre o BE,
Objetivo:Apresentação escrita simples e direta, publicada em forma de folder para  ser entregue a comunidade.
Estrutura: Uma folha A4, sub-dividida em 3 partes frente e 3 versos,  impressa frente e verso. Deve conter um texto corrido bem coerente e alguns boxes com exemplos e fotografias coloridas.
Devemos demonstrar para toda comunidade :
1- O que é, quais os objetivos e como funciona o horário integral.
2- Que os alunos irão aprender mais e melhor. 
3- Que tipo de atividades os alunos participarão.
4- Que os alunos estarão em segurança e bem alimentados

O Programa Bairro Escola é uma outra forma de educar que está sendo implantada em Nova Iguaçu. É também o resultado concreto das preocupações educacionais do governo, dos professores e educadores em geral, mas principalmente, responde a um desejo dos pais.

A educação de qualidade é um direito da criança e é algo que vai refletir não só na sua vida, mas de toda sua família. O Bairro Escola é uma ação no presente, sendo feita de olho no futuro. A escola que conhecemos deixa de ser o único espaço do trabalho que os professores realizam. Assim o aprendizado dos nossos alunos não acontecerá apenas na escola, como também em outros lugares do bairro, por isso que o bairro passa a ser considerado uma escola, daí o nome Bairro Escola.

Uma das inovações que o programa traz é o horário integral. Ao invés das crianças e adolescentes ficarem somente no período da manhã ou da tarde na escola, elas serão atendidas integralmente, ou seja, durante todo dia. A escola em tempo integral já estava prevista na legislação brasileira, mas poucos municípios cumprem.

As aulas do período complementar são chamadas de “oficinas” porque tem principalmente atividades práticas. Ou seja, além daquelas aulas que os alunos e alunas normalmente têm no horário regular, eles terão novas possibilidades de formação, com atividades culturais e artísticas, de esporte e de aprendizagem, além de jogos, brincadeiras. O programa terá também cuidados específicos com as refeições e com a higiene pessoal. Aqueles alunos que apresentam problemas de aprendizagem terão muito mais oportunidades para o seu desenvolvimento integral. Contudo, apenas os alunos matriculados nas escolas municipais poderão participar, mediante uma adesão dos pais, feita por escrito e assinada.

As escolas serão readequadas e equipadas para uma grande ação pedagógica, mas também vão contar com colaboração de parceiros existentes nas próprias comunidades, como associações, clubes, igrejas, praças, entre outros serão utilizados para realização das oficinas.  

Os alunos serão sempre acompanhados por agentes de trânsito, estagiários da prefeitura e profissionais da educação durante o caminho até estes locais, durante todo o período de duração dos cursos e oficinas. É uma experiência que já esta dando certo, por exemplo, no bairro de Tinguá. 


Reunião com Eugenia     

Marcamos as 8:00 na saguão do hotel para tomarmos café juntos e ler o material do metas do milênio e criar alguma familiaridade com tema e situarmo-nos. Eugenia ligou manifestando atraso. Tomamos café , conversamos seguimos para compromisso. 




Reunião Metas do Milênio 21/06/2006
        
Coordenação Geral do Bairro Escola
Horário: 10:00 da manhã 
Local – Área central da cidade
Participantes: Edson, Luciano- CGPBE; Salomão e Eugenia- IPF; Antonio –(Projeto BID) e Virginia Secretaria  da Saúde.
Edson inicia a reunião se apresentando e sustentando que nenhuma das pessoas do Observatório da Cidade esta presente por conta de uma agenda carregada de atividades fora de NI. Contudo como tem acompanhado todas as ações e discussões  desse grupo se sente a vontade para conduzir  reunião.r  Faz uma explanação sucinta sobre o que vem a ser as metas do Milênio ONU, sobre como nova Iguaçu se colocou no programa ao lado de BH e as outras ciaddes escolhiads pela ONU e qual o impacto disso em termos de ganho não âmbito do planejamento,  gestão  e políticas públicas para cidade de NI.

Enumera os Objetivos e Metas, relaciona os parceiros das demais SEC MUNs e cobra o fato do IPF ter não apenas abandonado o círculo de debates como também ter deixado de dar assessoria para que SEMED conseguisse levantar seus indicadores para ultimo evento sobre esta temática realizado na cidade. Certa tensão não, eu e Eugenia soba mira de todos, Ednaldo nada diz. 
Justifico a ausência do IPF e assumo o compromisso de uma nova  e urgente abordagem sobretudo tendo em vista o plano municipal de educação, eles concordam que tem tudo e ver. Ednaldo diz que ficou ausente por conta do sue contrato de trabalho e que ele a Joana passarão a representar a SEMED nesse fórum na ausência do Alseni.
Apresentam alguns dados de SEC do estado da Educação e do INEP, questiono o fato de que estes dados tratam apenas das crianças que estão ou estiveram ligado aos sistemas de ensino, deixando de lado aquelas que jamais freqüentaram a REDE. Eugenia sustenta que também os jovens desescolarizados ou acima de 15 anos não aparecem nessa pesquisa.
Luciano citando o IBGE de 2000 sustenta que este dava conta de 6.000 adolescentes nestas condições foram constatados pelo referido censo.
 Quanto ao atual encaminhamento de uma pesquisa sobre e educação, uma alternativa encontrada foi a utilização da equipe de combate aos vetores de (mosquitos da dengue), que farão um levantamento das crianças em idade escolar e que se encontram fora da escola. Para que se formule procedimentos voltados este publico específico.  
Edson faz mais algumas intervenções e Luciano fala do levantamento de dados que tem feito sobre e Educação no Município de suas dificuldades analisar tais dados. Edson novamente sugere que, eles esperam um apoio do IPF nesse campo, uma vez que é está uma instituição de referencia em gestão educacional.
As reuniões são de quarta feira. Encerra-se e simpaticamente vão nos subsidiar dos dados sobre a educação que eles já coletaram, ficamos mais algum tempo, ate a próxima.

Eu e Eugenia almoçamos e  trocamos impressões. 


As 14:00 reunião   com Alseni.
Relato verbal com base nas anotações
Relato da Eugenia 22/06 via telefone sobre BE na terça.   

O Instituto.
"Nem o frio distante de Lyon
nem o olhares frescos das cortesãs saciadas
nem a brisa imberbe durante a febre terçã
tem a voragem definitiva do arco em chamas que te alocará do chão."
Sanderval de Lancaster. (1356)

Como de costume tomamos café no pátio. Assim eram todas as manhãs, a não ser quando chovesse. De tudo a gente comia, queijos variados, frutas secas, bolachas recheadas. Todos meio-nus no átrio sacro e no mais puro silêncio. O barulho do sapato dele fazia um eco tão forte no corredor, que dava a impressão de que mil homens, em trajes de guerra entrariam por aquela porta. E se viessem, certamente eles entrariam armados. Mas não, nunca, somente gente pura e casta entrava e saia daquele lugar. A cruz de malta ficava lá, centro do jardim, uma velha senhora, guardiã atemporal.
Desde a adolescência nossa rotina s elaterou pouco. Para alguns de nós permaneceu mesmo depois da desinternação. Acordamos, oramos, fazemos o serviço de quarto, descemos para o salão e novamente oramos.  Depois é que vamos para pátio  esperá-lo.  Nos últimos tempos começaram a deixar que troxessemos coisas de casa,  as vezes até incentivavam, eu trouxe um velho terço e uma guia de Oxalá. O primeiro herdei de minha mãe e o segundo de meu irmão inciado na Umbanda.
Certo dia após a oração matinal nos autorizaram a vestir nossas roupas, inclusive roupas étnicas. Uma outra vez, há quase dez anos ele, em pessoa, nos surpreendeu ao dar uma aula sobre Legbará e Sumé. Imagine só, ele sabia de tudo, conhecia muito bem alguns segredos, cantigas, orações, sinais de buzios e risco no ar.
Na maioria das vezes ele chegava calmo, normal, magro, quase franzino. Mas era gigante quando emergia da penumbra do seu escritório. Primeiro deixava que a luz projetasse uma sombra do tamanho da porta no corredor. Parava um pouco, depois ingressava performático. Antigamente aquela me parecia uma porta enorme, talvez a maior porta do mundo, menor apenas que a porta da Igreja da Penha e por sua vez era menor, talvez um pouco menor, que a famosa porta do céu. Que nunca vi, mas imaginava, quando cria.
Quando eu cheguei ao Instituto imaginava ele e deus, juntos conversando. Deus, grandalhão e velho, branco e barbudo e ele com seu queixo fino, a cara sem pelo, a pele lívida dos santos de madeira policromada e as mãos de limpas de um intelectual, mais macias que couro de peixe sem escama.
Lá estava ele, tranqüilo, branco, médio e educado. Falava com todos em público, fazia questão de se dirigir a cada um pelo nome e sobrenome. (Desgraçado, cínico, monstruoso).
Quando em vez escolhia alguém. Era sempre o mais cheiroso, alvo e limpo e cochichava.  Ele chegava bem perto e cochichava o apelido que ele mesmo nos deu. E por vezes ria, mas ria comedido. Punha a mão no rosto para se esconder, mas ria. Era então quando pronunciava nosso nome secreto, era nosso segredo, ele brincava. Lembro-me que falava manso no pé da orelha e isso em mim dava um tremendo arrepio, eu já não era mais um menino.  (tarado sádico, excomungado).
O reitor fazia uma prelação breve. Retirava dois ou três de nós para uma oração mais longa em seu escritório, que ficava no terceiro andar do prédio. E somente os escolhidos, o bem escolhidos, os escolhidos a dedo podiam entrar em outra sala contigua ao seu escritório. Eu nunca fui lá. Quem já foi nunca me contou nada.
Naquela manhã chegou mais cedo que de costume, veio como pisando em plumas, não fez barulho. Apenas eu notei, notei não, senti, senti seu peito que ofegava, enquanto ele ficou um longo tempo nos observando por entre as folhagens. Pensei. Qual seria o motivo? Cansaço, medo, angustia? Sei lá. Era um homem encantador, previsível, meticuloso e tão estranho. Não dizer sei se era seu sotaque do sul meio cantado, ou quem sabe os resquícios de latim.
Ele vinha vigoroso naquela manhã. Algo maneira diferente de andar, na roupa tão bem passada, sempre escura, pesada. Parece que escondia alguma coisa por detrás das palavras e da roupa. Como posso explicar isso? Na maioria das vezes que o via e ouvia falar, sentia algo como ver um filme, cujas legendas expressam coisas totalmente divergentes das imagens, uma flagrante contradição entre gestos e expressões faciais dos personagens e o enredo da história.
Mas o que isso quer dizer?
É um estado da alma, como diria Lima Barreto, uma tecla sensível. Quando ocorre somos levados a desconfiar da nossa própria capacidade de tradução. Não sei se acontece com você, mas por vezes me vejo em situações desse tipo. Isso é muito diferente de assincronia, delay ou atraso, como as antigas transmissões de internet.  Suas abordagens me davam esta sensação.
O desconforto que me causava, era muito maior, que assistir a uma técnica mal apurada.  Por vezes penso que sou eu quem desconectava temporariamente. Surgia em mim uma espécie de desdém pelo tempo real da vida, um apego por fragmentos de segundos. Por exemplo fixação em uma cena ou uma frase.
Era tão repentino. Bum, uma imagem sem som, em slow. Depois voltava aos poucos até reencontrar o prumo e o sentido . Outras vezes via que as bocas se moviam, as línguas iam aos dentes, mas ficava um vácuo de semibreve, entre mim e as coisas, as coisas e o mundo.
Isso não importa, mas já que quer ouvir, vou contar mais. Ficavam e ainda fico fora de mim. É apenas meu corpo solto no mundo. Tenho quase sempre volume exato das coisas, mas não tenho as referências do som. O som é uma coisa esquisita. Me imagino como alguém que ficou sem ouvir nada a vida inteira e de repente, já quase idoso, pudesse ouvir. Ficaria louco?
A questão não é o som e a imagem, é a imagem e som do mundo. Esquece é muito delírio. Não vou contar mais, desculpe, vou retomar a tal história.  
Aquela manhã ele parecia especialmente diferente. Não escondia os olhares como alguém falsamente tímida, não media as palavras como um orador profissional que era. Contudo falava diferente, dois tons mais alto, rápido e estridente. Quero dizer, um tanto mais agudo. Seus trejeitos não eram propriamente efeminados, mas menos contidos. Levava constantemente a mão esquerda ao cabelo e parava. Mexia no lóbulo da orelha carinhosamente, reflexivamente, olhava para nós, através de nós ou para o nada.
Sentou-se e repetiu a ladainha costumeira, monotônico e entediante. Estava como de praxe, no trono, ou melhor, na sua cadeira exclusiva, na qual ninguém se sentava sob o risco de não sei o que. Ditou mecanicamente a prelação matinal.
De repente começou a contar porque havia construído aquele lugar, o INSTITUTTO. Falou sobre suas atividades acadêmicas, lembrou-se de sua mãe. Do nada começou a narrar a última partida de futebol que jogou no fim da infância. Ninguém acreditou naquilo. Seria uma peça, um texto novo, uma pegadinha?  Ele falava:
“Eu adorava jogar bola, o futebol, era única coisa que meu pai elogiava em mim, minhas qualidades de futebolista. Talvez por isso eu gostasse tanto de bola e ainda hoje gosto. Estranhamente meu pai percebeu em mim, o dia em que algo dentro mudou irreversivelmente, não sei como, mas ele percebeu. Minha mãe somente percebeu muito tempo depois, pouco antes de morrer.” 
E seguia...
“Vocês que me vêm hoje, não têm idéia do quanto eu jogava bem futebol. Apenas eu, entre todos os moleques do bairro tinha uma bola de capotão, era assim que se chamavam as bolas de couro e a minha durou anos. Todo fim de jogo, eu a levava para casa, lavava e passava banha de porco, para conservar o couro. Naquele tempo era um brinquedo tão caro e raro, que muitos meninos ficaram meus amigos, somente em função dela. Da bola. Olhem só, uma esfera de couro, cortada em gomos, com uma câmara pneumática por dentro. Bendita invenção inglesa.”
Ele se levantou enquanto foi crescendo no entusiasmo, estava quase gritando:
“O futebol, me deu ritmo certo para andar sobre a terra.”
Nisso já havia abandonado o tom inicial, falava apologeticamente, gesticulava, pregava, já era ali um homem de deus. Seguindo:
“Foi jogando futebol que ouvi pela primeira vez a voz da terra e seu chamado. Ao ir de encontro aos corpos dos oponentes em campo, meninos negros lindos, apenas garotos suados e puros, sonhei. Arcanjos de carapinha faziam milagres entre traves e riscos no chão.  Aprender e sentir os limites do espaço e dos corpos que eles impunham no meu caminho e principalmente experimentar a queda, era como poder ler de uma só mirada todas as poesias bíblicas.  
Nenhuma lição prática e filosófica foi melhor de que ralar face no chão e desfalecer na terra. Desfalecer com a face no chão e ver. Ver o mundo a partir dos olhos mergulhados na poeira, bem ali com o corpo esfrangalhado e os olhos rotos, rentes ao chão. Creio que foi essa experiência crepuscular, entre a dor e o insucesso, uma quase-morte, que me ligou definitivamente a terra e logicamente aos meninos.”
Silenciosamente pensamos: os meninos!??
“Sim, os meninos. Uma oportunidade para eles, um lar, um lugar sem dor, onde tivessem a chance de aprender e crescer. Os meninos são o sal da terra.
Falo verdadeiramente do pó da terra, dos pedregulhos, das plantas rasteiras, das arvores de galhos retorcidos e folhas grossas, essa dimensão da savana e do serrado, entre a exuberância e ausência de água e de mata e os seres humanos ali, mesmo depois de mortos. Falo sobre a terra, sobre nós e as outras coisas que brotam e morrem na terra inclusive as cidades, as idéias, as técnicas e as ideologias e os meninos.”  
Estava com os olhos cheios d’água quando parou. Ficou ali parado em pé, alguns instantes se deixou cair no trono. E ficou assim tempos esquecidos meio largado, quase imóvel. 
Ninguém de nós nunca havia pensado sobre isso, uma iluminação advinda de um jogo de futebol. Estávamos extasiados. Era arrebatamento puro. Podia ser um homem santo, um enviado no fim dos tempos para nos resgatar da nossa insânia coletiva, como um anjo vingador.
Mas algo me intrigava. Porque ele havia adotado aquela fachada de intelectual engajado? Ao mesmo tempo era o que se pode chamar de um grande homem de negócios, um tremendo empresário, um empreendedor, que sabia negociar magistralmente seus inúmeros contratos, como ninguém ele gostava de ganhar dinheiro. Percebíamos sem espanto, o quanto ele gostava disso. Já vi com bolos de dólares. Ele se torna mais excitado, amais ágil, mais falante, quase um moleque.
Com tempo nos acostumamos com suas aparentes contradições. Sentava-se com prefeitos, secretários de estado, ministros, reitores de universidade públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. Porque se deixava fotografar entre agiotas, traficantes, juízes e políticos tão francamente corruptos e acadêmicos sem expressão?
Dizia sempre:
“Nesse país se você não se apresenta como empresário bem sucedido, ninguém, ninguém mesmo te dá ouvidos ou te abre as portas. Precisamos das portas abertas”! Usou como exemplo os grandes assaltos as joalherias e bancos da cidade.
Pensei então, é isso. Ele mantinha aquela estrutura e aceitava passivamente ser caluniado como usurpador, demagogo, libidinoso e até mesmo bandido, porque seu propósito era muito maior. Mas e os meninos, que será que ele faz com os meninos e porque será que ainda mantém esta entidade tão dispendiosa?
No exato instante em que fazia secreta e silenciosamente tais perguntas, ele se voltou para mim, exclusivamente para mim e fitando-me longamente, com doçura e voz materna, disse:
“Se você tiver coragem para me fazer tais perguntas, prometo que responderei sinceramente cada uma delas.”
Entrei em desespero, gaguejei, abaixei os olhos e comecei a suar. Ele insistiu, chegou bem perto e disse:
“Acalme-se, hoje vou te dar a chance de desvendar todos os mistérios e dúvidas  que você alimenta internamente sobre meus propósitos, se ainda assim restar alguma questão mal esclarecida, por mais tola e pequena que seja, você será liberado para partir.”
 Alguns exclamaram: partir?! Ele nem se deu conta da surpresa geral. Todos nos olhavam assustados e igualmente confusos.
Contudo, ele falava de tal maneira sedutora e acessível, que me deixou emocionado... E com medo.
Nunca me passou pela cabeça, que alguém ou algo pudesse me impedir de partir quando quisesse. Por outro lado, sabia que todos aqueles que estavam ali, os mais recentes haviam chegado há pelo menos 20 anos. Todos sem exceção passaram parte da vida como internos em educandários católicos e foram escolhidos pessoalmente por ele, quando chegaram à idade de 16 anos.  Todos o idolatravam e fariam de tudo para não decepcioná-lo, embora seus métodos de controle não fossem muito ortodoxos do ponto de vista pedagógico. Ocasionando momentaneamente, medos, pequenas mágoas e descontentamentos entre nós.
Quem era afinal aquele homem? De onde veio e por onde andou? Quais eram suas idéias, crenças e valores? Porque havia criado o Instituto após a morte do poeta?
Sabíamos que antigamente o poeta declarava abertamente que não gostaria que suas idéias gerassem um novo credo ou uma nova escola.
Porque ele havia recolhido os pertences do poeta pelo mundo e transformados todos aqueles objetos de uso cotidiano e prático em relíquias santas? Porque cobrava verdadeiras fortunas para traduzir textos do poeta? Porque levou tantos adeptos do poeta a morte, ao silêncio ou à proscrição?
Ele encarcerou durante anos a última mulher e um filho bastardo do poeta em um dos aposentos do Instituto. Ouvíamos gritos abafados de um dos aposentos... Dizem que os dois vocalizavam palavrões piores que aqueles aprendidos na terceira chapada, onde funcionava a casa de quengas.  Sabe-se havia escondido os escritos eróticos do poeta, talvez os mais libertários.  Principalmente sabemos que aliterou os escritos mais ricamente poéticos do homem bom, transformando-os em escrituras proféticas. Por fim roubou as ultimas idéias do poeta e as reduziu a acrósticos.   
A liberdade que o poeta buscava por meio de um rigoroso exercício reflexivo, extraído das relações humanas diretas, diálogos e conversações não hierárquicas sobre a natureza do conhecimento a da vida, ele transformou em filmes, hoje são revendidas no Instituto e também em bancas de jornais, livrarias e lojas de conveniência de todo país e mesmo no estrangeiro.  Nós e o mundo o víamos como um intelectual profícuo e homem de deus. Líamos seus livros, teses, novelas e melodramas. Sua última preocupação era com jogos digitais que queria adaptar a partir de contos populares infantis.
Era sobre isso que gostaria que ele falasse, mas não ousei inquiri-lo. Ele exibia sempre fotografias de uma vida exemplar e um currículo imaculado. Sua arquitetura personalista estava espalhada pelo Instituto, desde a portaria até o terceiro andar, em todas as paredes do prédio tinham imagens dele, sempre abraçado com o poeta ou celebridades.
O que sabemos sobre ele advém de biografias breves, releases publicadas na internet. Nasceu em São Francisco do Sul, litoral de Santa Catarina.  Seus avos paternos eram de família  oriunda da Itália, da região de Cilerito. Pelo que se sabe esse nome tem origens remotas, século XV, talvez.
Naquela noite não consegui dormir, fui assombrado pelo real perigo da excomunhão. Sair do Instituto.